Conajira/FENAJ e órgãos de classe alertam para sub-representação de negros no jornalismo na EBC

741

Entidades pedem saída de gestores que censuraram e descaracterizaram programas na TV Brasil e nas rádios públicas

Única apresentadora negra no Rio de Janeiro, a jornalista Eliane Benício foi desligada da EBC

A reestruturação do jornalismo anunciada pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC) – que na prática acaba com telejornais da TV Brasil e enfraquece o radiojornalismo – culminou com a demissão da única apresentadora negra do Rio de Janeiro, raridade na TV Brasil, justamente, por não ter mais jornais na praça. Eliane Benício, com vasta trajetória em mídia pública, jornalista oriunda da antiga TV Escola e da Rádio Roquette Pinto, não terá espaço no Rio, enquanto outros profissionais brancos foram mantidos. Benício, além de apresentar o Repórter Brasil Tarde, fez, recentemente, reportagens de destaque sobre violência obstétrica contra mulheres negras, série sobre a juventude e programa sobre o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

As mudanças na EBC, feitas de cima para baixo, como denunciado pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), no fim de abril, vão na contramão das boas práticas indicando a presença de pessoas negras nas redações como fundamental para produção de conteúdos antirracistas, conforme recomendação da 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância das Nações Unidas (ONU) e ratificada pelo Brasil.

 Na contramão do que se espera, até agora, a EBC anunciou apenas a contratação de profissionais brancos para ficar à frente das telas: os ex-globais Cissa Guimarães, Cristina Serra (que apresentou uma série) e Marcos Uchôa. Ruy Castro foi chamado para programa da Rádio MEC. Apesar de importantes trajetórias na televisão e no jornalismo, os convites não refletem a diversidade da população brasileira. 

Levantamento das nomeações no site da EBC também nos permite afirmar que os  gabinetes de novos diretores, superintendentes e as gerências-executivas privilegiam pessoas não-negras, muitas, sem experiência na comunicação pública. 

 Fora do jornalismo, na Diretoria de Produção de Programas e na Diretoria Geral, preocupam sinalizações de anistia e promoção de gestores que cometeram censura, usaram recursos públicos na compra de direitos de programas racistas, como as novelas da TV Record e a série Belle Époque; descaracterizaram programas, como o Sem Censura; e, quase desligaram as Rádio MEC e Nacional. Esses gestores também cometeram graves práticas assediosas, denunciadas à nova direção e aos sindicatos. Não há justificativa para manter quem atuou contra a democracia nos quadros de gestão. 

Diante desses fatos, a Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Racial (Conajira), vinculada à FENAJ, acionada pelo Núcleo de Negres e a Comissão de Empregados da EBC, convoca a sociedade a apoiar a diversidade na empresa e o retorno do Conselho Curador, composto pela sociedade civil, especialistas e movimentos sociais, de modo que a EBC faça um novo pacto pela comunicação pública, em linha com os critérios de qualidade da Unesco.

Núcleo de Negres da EBC

Comissão de Empregados da EBC

Comissão Nacional Jornalistas pela Igualdade Racial (Conajira)