Nota de pesar – Newton Carlos de Figueiredo

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(Foto: álbum de família)

A FENAJ e a diretoria colegiada do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro homenageia o grande profissional Newton Carlos de Figueiredo, que nos deixou hoje (30), aos 91 anos, no Rio de Janeiro.

Newton Carlos vai ser velado no Memorial do Carmo do Caju, nesta terça-feira (1º/10), a partir das 13h. Ele estava internado desde sexta-feira (27), por conta de uma pneumonia.

Nascido em Macaé, Newton Carlos trabalhou como repórter e comentarista em diversos veículos, onde notabilizou-se por ser pioneiro nas grandes coberturas internacionais, em reportagens realizadas no mundo inteiro, com foco principal e o militar na Argentina. Nos anos de chumbo da ditadura deflagrada em 1964, foi perseguido e teve que se esconder para não ser preso

Trabalhou em diversos veículos de comunicação do Brasil e também escreveu para a Itália, Argentina, Peru e México. Começou a carreira no Correio da Manhã, foi chefe de reportagem da revista Manchete, na Bloch Editores, foi primeiro editor internacional do Jornal do Brasil. Na Folha de São Paulo, assinou coluna durante 25 anos e atuou como comentarista na rádio e TV Bandeirantes. Atuante, colaborou até o começo de 2019 para o Correio Braziliense. Além de jornalismo, escreveu livros,como “América Latina Dois Pontos”, “Bush e a Doutrina das Guerras sem Fim” e “A Conspiração”. E, como escritor, conquistou o prêmio Rei da Espanha,

Newton Carlos deixa mulher, Eliana Brazil Protásio, e três filhas: Cláudia, Márcia e Janaína Figueiredo, jornalista de O Globo.

Seque o texto homenagem do jornalista e colega de Newton em redações, Rogério Marques.

Newton Carlos e a ameaça de bomba no restaurante Barbas

Acabo de saber da morte, aos 91 anos, do jornalista Newton Carlos. Além de grande profissional, que cobriu durante décadas a área internacional, principalmente América Latina, Newton Carlos foi também um grande homem. Tive o prazer de trabalhar com ele na TV Bandeirantes do Rio, final dos anos 70, começo dos 80. Lembro de uma situação curiosa, na verdade tensa, daquele período, envolvendo o Newton Carlos. Aconteceu em uma noite no restaurante Barbas, que já não existe, e ficava bem perto da emissora, no final da Rua Álvaro Ramos, em Botafogo.

O restaurante foi criado por um grupo de militantes da esquerda, três se não me engano, entre eles o gente boa Nelsinho Rodrigues, filho do grande Nelson. Todos eles barbados, daí o nome da casa.

A ditadura militar já se aproximava do fim, mas grupos de extrema direita, exaltados atualmente por algumas figuras nefastas, tentavam prolongar a vida do regime. Esses grupos praticavam atentados terroristas contra entidades que defendiam a democracia, como a ABI e a OAB, e incendiavam bancas de jornais que vendiam os tabloides da esquerda. Uma carta-bomba havia matado a secretária da OAB Lyda Monteiro, e uma bomba de alta potência tinha destruído o banheiro do sétimo andar da ABI. Os terroristas tentaram também provocar uma tragédia em um show pelo Dia do Trabalhador no Riocentro, em 1981, e aconteceu aquilo que se sabe.

Foi por essa época, e nesse clima, que aconteciam no Barbas debates sobre temas políticos com convidados diversos, uma forma de resistência à ditadura. Alguns desses debates eram conduzidos pelo Newton Carlos, na época já um profissional experiente, frequentador do restaurante e admirado por todos ali.

Certa noite, casa lotada, o debate ia começar quando alguém sussurrou alguma coisa no ouvido do Newton. Sua expressão mudou na hora. Ele se levantou, conversou com os sócios do restaurante, a plateia sem entender nada.

Quando o Newton voltou ao microfone, pediu silêncio e, visivelmente tenso, fez um aviso que tirou o apetite de muita gente. Alguém havia telefonado para o restaurante avisando que uma bomba explodiria lá dentro de pouco tempo.

Newton Carlos disse que o debate seria realizado, mas pediu que as pessoas dessem uma olhada embaixo das mesas e avisou: quem preferir se retirar que faça isso sem o menor problema.

Algumas poucas pessoas realmente preferiram ir embora. Um moça que dividia a mesa comigo e com outras pessoas ficou, mas o garçom tinha acabado de servir os pratos. “Perdi o apetite”, ela disse.

O fato é que o debate prosseguiu, felizmente sem que nada de grave acontecesse. Uma das táticas da extrema direita na época, além dos atentados, era criar esse tipo de clima.

No final, um Newton Carlos já sorridente agradeceu a todos e até arriscou umas brincadeiras sobre aquele momento de tensão, que na época se justificava plenamente.