Nota de repúdio a mais um ataque do Presidente Jair Bolsonaro aos jornalistas

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Nessa terça-feira (8/10), a postura descabida do presidente Jair Bolsonaro (PSL) diante de questionamento de jornalistas sobre denúncia de tortura em presídios do Pará, novamente virou manchete dos principais jornais da mídia tradicional e independente e gerou debates nas redes sociais da Internet. Longe de ser devaneio, a atitude do capitão reformado tem objetivos certeiros e brutais, que desembocam em um Estado desnudo de Democracia.

O episódio se deu em frente ao Palácio da Alvorada, quando um jornalista perguntou a Bolsonaro sobre ação do Ministério Público Federal do Pará, que pede investigação de prática constante de tortura em presídios do estado. Segundo o MPF, as técnicas – que passam por perfuração dos pés de detentos com pregos e empalamento pelo ânus – são realizadas por integrantes da Força-Tarefa de Intervenção Penitenciária. A FTIP foi autorizada pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro, a pedido do governador do Pará, Helder Barbalho (MDB).

Ao ser questionado, Jair Bolsonaro deu as costas ao jornalista. Mas, antes de seguir viagem, subiu na soleira do veículo que o esperava e disse: “Meus Deus, salve, lave a cabeça dessa imprensa fétida que nós temos. Lave a cabeça deles. Que bote coisas boas dentro da cabeça. Que possa perguntar e ajudar com sua matéria para salvar o nosso Brasil. Eles não viam problemas em governos anteriores. Vocês são importantíssimos para salvar o Brasil. Parem de perguntar besteira”.

Não é de se espantar que, para Bolsonaro, tortura seja tratada como “besteira”. Em diversas ocasiões, ele fez questão de reverenciar o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que no período da ditadura militar no Brasil colocava ratos nas vaginas de presas políticas.

Entretanto, a fala em tom áspero do presidente da República traz ainda pelo menos dois outros fatores que vão na contramão da democracia: o ataque à liberdade de imprensa e a institucionalização da desinformação.

Ao se negar a responder a pergunta do jornalista, o presidente priva a sociedade de esclarecimento sobre fatos graves e de interesse público, impedindo o exercício da cidadania ativa, informada e participativa. Além disso, ao botar na conta de jornalistas a culpa da crise sócio-política econômica no Brasil, Bolsonaro instiga a violência de seus apoiadores contra trabalhadoras e trabalhadores da comunicação, colocando em risco não só a credibilidade, mas principalmente a vida dessas pessoas.

O ataque aos profissionais da imprensa não é de hoje. A tática foi usada durante a campanha política de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018, como forma – obscena – de rebater notícias que viessem impactar negativamente sua campanha. Para isso, ele associou a estratégia da desinformação, utilizando informações falsas, ocultando dados e silenciando vozes, seja em seus parcos discursos nas redes tradicionais de mídia ou com intensidade nas redes sociais da Internet.

A oração do presidente para lavar “a cabeça da imprensa fétida” ao ter sido questionado sobre crimes de tortura por agentes públicos federais e estaduais retoma a estratégia da desinformação – pavimentada dessa vez no fundamentalismo religioso. Enquanto a denúncia do MPF do Pará anexa fotos com internos expondo feridas graves e relatos chocantes de familiares, Bolsonaro oculta dados e tenta levar a sociedade a acreditar que o crime de tortura em presídios do Pará é invenção de jornalistas para prejudicar seu governo.

Nós, jornalistas, enfrentamos um brutal e sistemático ataque do próprio governo federal que vem no sentido de nos calar, a partir do crescente discurso de desconfiança e deslegitimação, que resultam em ataques verbais e físicos, perseguição e até mesmo assassinato de trabalhadoras e trabalhadores da nossa categoria.

O ataque à liberdade de imprensa, à liberdade de expressão e a prática da desinformação – potencializada com as redes sociais na Internet – abalam gravemente a estrutura da sociedade democrática. A pluralidade de veiculação de informações verdadeiras e de interesse público, um dos princípios do jornalismo, é essencial para a formação de cidadãos críticos, capazes de contextualizar suas realidades e transformar seus futuros, sendo protagonistas de suas próprias histórias.

Privada do direito à informação, a sociedade fica imersa na polarização, sem condições de promover o debate público e pensar soluções para problemas latentes; diante de um Estado opaco, opressor e que rompe de vez com a democracia e os direitos.

A diretoria do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal (SJPDF) repudia e denúncia mais estes ataques desferidos pelo presidente da República. Reafirmamos, ainda, o nosso compromisso de lutar pela segurança de todas/os jornalistas e por uma mídia plural, independente, autônoma e livre e de combater a desinformação, o que também é uma tarefa de todas e todos!

Sindicato das/os Jornalistas Profissionais do DF