Ataques online à imprensa crescem 67,3% na segunda quinzena de campanha

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Monitoramento identificou 4.400 ataques entre 30 de agosto e 12 de setembro; mulheres concentraram 59% das agressões dirigidas a jornalistas no Instagram

À medida que a campanha eleitoral ganha intensidade e amplia a circulação de conteúdos políticos nas redes sociais, cresce também o volume de agressões direcionadas à imprensa. Entre 30 de agosto e 12 de setembro, foram identificados 4.400 ataques contra jornalistas, veículos e a imprensa em geral no X e no Instagram, um aumento de 67,3% em relação aos 2.630 registrados nas duas semanas anteriores.

O crescimento ocorreu em um período de forte expansão da própria conversa eleitoral nas redes. O universo de conteúdos coletados pelo monitoramento aumentou 128%, passando de 519.224 posts e comentários na primeira quinzena para 1.183.753 na segunda. Os ataques, portanto, cresceram em números absolutos, mas em ritmo menor que o conjunto de conteúdos eleitorais analisados.

Dos ataques identificados no segundo período, 3.011 ocorreram no Instagram e 1.389 no X. Assim como nas primeiras semanas da campanha, o Instagram concentrou o maior volume absoluto, mas os ataques foram proporcionalmente mais frequentes no X. Foram analisados 89.118 posts, reposts e comentários no X, diante de 1.094.635 posts e comentários no Instagram.

Hostilidade atinge mais jornalistas e veículos

O crescimento dos ataques também ampliou o conjunto de alvos. Entre 30 de agosto e 12 de setembro, 86 jornalistas e 109 veículos distintos foram atingidos nas duas plataformas, ante 46 jornalistas e 91 veículos na quinzena anterior. Meios de alcance nacional permaneceram em destaque: no X, a Folha de S.Paulo recebeu 241 ataques, seguida por GloboNews (206) e g1 (161). A audiência e o alcance desses veículos, que aumentam sua exposição nas redes, também devem ser considerados na leitura dos números.

eleição presidencial concentrou a maior parte da hostilidade diretamente associada às disputas eleitorais. Dos 3.026 ataques identificados nesse contexto, 2.232 estavam ligados à disputa presidencial e 794 às estaduais — quase três em cada quatro registros.

Deslegitimação segue em destaque

Mesmo com a ampliação dos alvos, os padrões de hostilidade permaneceram semelhantes aos observados no início da campanha. Expressões como “imprensa militante”, “mídia golpista”, “jornalista militante”, “fake news”, “caiu Pix” e “imprensa vendida” continuaram associando jornalistas e veículos a interesses políticos ou financeiros e colocando em dúvida a independência de seu trabalho.

Mais uma vez, esse tipo de ataque apareceu em diferentes posições do espectro político. Coberturas sobre o Banco Master, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o governo federal estiveram entre os contextos que desencadearam agressões, muitas vezes deslocando a contestação da reportagem para a credibilidade ou características pessoais dos profissionais.

Disputas estaduais criam novos focos de hostilidade

Esse cenário também se refletiu na mudança da distribuição geográfica dos ataques ligados às eleições estaduais. Se nas primeiras duas semanas São Paulo (80) liderava, entre 30 de agosto e 12 de setembro Minas Gerais passou à frente, com 213 ataques, seguido por São Paulo (174), Bahia (94), Distrito Federal (86) e Pernambuco (64).

O crescimento em Minas Gerais coincidiu com a repercussão de coberturas envolvendo atores políticos do estado, especialmente as relacionadas ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e ao banqueiro Daniel Vorcaro, no contexto do caso Banco Master, que estiveram entre os temas que desencadearam ataques contra jornalistas e veículos no período.

Violência de gênero

A dimensão de gênero também permanece relevante. No Instagram, foram identificados 636 ataques direcionados a jornalistas específicos, dos quais 375 atingiram mulheres e 261 homens. Assim, mulheres foram alvo de 59% das agressões, apesar de o número de profissionais homens atingidos ter sido maior: foram 39 homens e 25 mulheres. No X, 22 mulheres foram atingidas e concentraram 280 dos 530 ataques direcionados a jornalistas específicos (52,8%). 

O dado mostra uma concentração maior da violência sobre as mulheres atingidas e dá continuidade a um padrão observado na primeira quinzena, quando elas receberam cerca de dois terços dos ataques direcionados a jornalistas específicos nas duas plataformas.

Misoginia e ameaças contra Juliana Dal Piva

Os ataques contra a jornalista Juliana Dal Piva são um dos casos emblemáticos do período e mostram como a deslegitimação profissional pode se combinar à violência de gênero. Após conteúdos relacionados ao seu trabalho jornalístico sobre áudios envolvendo Nikolas Ferreira e Vorcaro, Dal Piva recebeu mensagens que a acusavam de produzir “fake news”, além de agressões de caráter sexual e misógino. Entre os conteúdos identificados, houve ainda incentivo à violência física contra a jornalista.

Além dos ataques digitais, a cobertura de Dal Piva sobre a relação entre Nikolas Ferreira e Vorcaro, também resultou em um processo judicial contra o ICL Notícias, veículo que publicou as reportagens. A Justiça Eleitoral de Minas Gerais concedeu uma liminar que determinava a censura completa da reportagem, depois, o magistrado autorizou a republicação, mas foram proibidos de incluir a palavra “lindão” no texto.

X mantém maior índice de toxicidade

X manteve o maior índice de toxicidade entre as duas plataformas analisadas. Entre 30 de agosto e 12 de setembro, a média foi de 38,2%, repetindo o índice registrado na quinzena anterior. No Instagram, a toxicidade apresentou uma pequena redução, de 23,7% para 22,9%.

A análise é realizada pelo monitoramento da CDJor em parceria com o ITS Rio, utilizando a ferramenta Perspective API, do Google, que atribui a cada mensagem uma pontuação de toxicidade em uma escala de 0% a 100%. Quanto mais próximo de 100%, maior a probabilidade de o conteúdo ser percebido como tóxico pelos usuários.

Violência afasta veículo da cobertura eleitoral

Fora das redes, o Tapajós de Fato, veículo independente de Santarém (PA), decidiu não cobrir as eleições de 2026 após anos de ameaças e episódios de violência contra sua equipe. A redação desistiu antes da primeira reportagem e deixou de realizar pautas previstas sobre vínculos de candidatos com garimpo, agronegócio e grandes obras que afetam a região.

A decisão ocorre após uma sequência de intimidações. Nas eleições de 2022, os pneus do carro usado pela equipe foram rasgados e, posteriormente, a cabeça decapitada de um gato foi deixada ao lado de um bilhete com ameaça de morte ao fundador do veículo. O caso mostra um dos efeitos mais graves da violência contra a imprensa: quando o risco impede uma cobertura de acontecer, informações de interesse público também deixam de circular.

Como funciona o monitoramento

Os dados fazem parte do monitoramento da Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor) sobre ataques à imprensa durante as eleições de 2026. A coleta e o processamento dos conteúdos do X e do Instagram são realizados pelo Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic), do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo.

A metodologia considera publicações e comentários envolvendo candidatos à Presidência, Congresso Nacional e governos estaduais, jornalistas e veículos, além de 652 termos e hashtags ofensivos. Os conteúdos filtrados são processados e analisados para identificar ataques e suas características. Publicados quinzenalmente durante a campanha, os boletins também acompanham episódios emblemáticos que ultrapassam o ambiente digital, permitindo observar como diferentes formas de violência e pressão afetam o exercício do jornalismo e a circulação de informações de interesse público.