Proporção de agressões contra profissionais mulheres cresceu mais de 20 pontos percentuais nas duas plataformas, com destaque para o episódio envolvendo Maria Cristina Fernandes na GloboNews. Monitoramento da CDJor identificou 4.537 ataques à imprensa entre 13 e 26 de setembro
A violência contra mulheres jornalistas ganhou força na reta final do primeiro turno das eleições de 2026. Entre 13 e 26 de setembro, elas concentraram 77,3% dos ataques direcionados a jornalistas específicos no X e 79,1% no Instagram, segundo o terceiro boletim de monitoramento da Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor). As proporções representam um aumento expressivo em relação à quinzena anterior, quando eram de 52,8% e 59%, respectivamente.
No total, o monitoramento identificou 4.537 ataques contra a imprensa, atingindo 95 jornalistas e 107 veículos de comunicação distintos. Foram analisados 1.155.197 conteúdos eleitorais publicados no X e no Instagram. Em comparação com a quinzena anterior, o número de ataques cresceu 3,1%, mesmo com uma redução de 2,4% no volume de conteúdos analisados.
A dimensão dos ataques de gênero
No X, foram identificados 485 ataques direcionados a jornalistas específicos, dos quais 375 atingiram mulheres e 110, homens. No Instagram, elas receberam 514 das 650 agressões registradas contra profissionais identificados, enquanto homens foram alvo de 136.
A concentração é ainda mais expressiva quando se observa o número de jornalistas atingidos: dos 95 profissionais identificados nas duas plataformas, 45 eram mulheres e 50, homens. Embora representem menos da metade dos alvos, elas receberam quase quatro em cada cinco ataques direcionados a jornalistas específicos.
Maria Cristina Fernandes concentra onda de ataques
O caso ajuda a dimensionar a violência direcionada às jornalistas neste período. Com 226 ocorrências, ela foi a profissional mais atacada no X*, concentrando uma onda de agressões após a GloboNews se retratar de um comentário feito pela jornalista.
Maria Cristina havia mencionado uma mobilização de parte dos evangélicos para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Mesmo sendo a informação correta, a emissora decidiu se retratar, explicitando que o movimento não estava diretamente ligado ao candidato Flávio Bolsonaro. Depois disso, Maria Cristina passou a receber uma grande quantidade de ofensas nas redes sociais.
Os ataques incluíram acusações de disseminação de informações falsas, insultos pessoais e tentativas de descredibilização profissional. No Instagram, foram identificados também conteúdos com incitação à violência física e à morte contra a jornalista.
A repercussão do episódio se insere em um cenário no qual a expressão “fake news” ganhou destaque entre os termos ofensivos monitorados. Nas duas últimas semanas, ela foi citada 171 vezes no X, tornando-se a mais frequente na plataforma, e outras 108 vezes no Instagram.
Outras acusações recorrentes, como “caiu pix”, “pesquisa comprada” e “jornalista militante”, continuaram associando a atuação da imprensa a supostos interesses políticos e financeiros. No entanto, o caso de Maria Cristina evidencia como a violência pode ultrapassar a crítica a um comentário específico e se transformar em uma onda de agressões direcionadas.
Disputa presidencial concentra parcela ainda maior dos ataques
Além da mudança na distribuição dos ataques por gênero, a terceira quinzena de campanha registrou uma concentração crescente das agressões no contexto da eleição presidencial. Dos 2.954 ataques diretamente relacionados às disputas eleitorais, 2.530 estavam associados à corrida presidencial, o equivalente a 85,6% do total. Outros 424 foram identificados no contexto das eleições estaduais.
A diferença aumentou em relação ao boletim anterior, quando a disputa presidencial concentrava 73,8% dos ataques eleitorais. Com isso, a relação passou de aproximadamente três ataques ligados à disputa presidencial para cada um, relacionado às estaduais de quase seis para um.
A redução dos ataques associados às eleições estaduais também veio acompanhada de uma mudança em sua distribuição territorial. O Ceará passou a concentrar o maior número de registros, com 72 ataques, seguido por Pernambuco (60) e São Paulo (58). Na sequência aparecem Santa Catarina (46), Bahia (40) e Minas Gerais (36).
Toxicidade recua no X e aumenta no Instagram
A análise de toxicidade realizada pela CDJor em parceria com o ITS Rio, por meio da ferramenta Perspective API, do Google, apontou uma média de 36,9% no X e 23,4% no Instagram. Em comparação com a quinzena anterior, houve uma redução da toxicidade no X, que passou de 38,2% para 36,9%, enquanto o Instagram apresentou um pequeno aumento, de 22,9% para 23,4%.
A ferramenta utiliza uma escala de 0 a 100% para estimar a probabilidade de um conteúdo ser percebido como tóxico, considerando características como linguagem ofensiva, insultos e hostilidade. Quanto mais próximo de 100%, maior essa probabilidade. O indicador complementa a contagem de ataques ao oferecer uma medida das características da linguagem empregada nas publicações analisadas.
Foras das redes: Ministério Público Eleitoral pede informações sobre fontes de reportagem no Amazonas
O Ministério Público Eleitoral do Amazonas, no dia 16 de setembro, solicitou ao Portal Redação Amazônia informações sobre as fontes de uma reportagem, incluindo quem compartilhou o material publicado, quando ele foi recebido, os arquivos originais e eventual remuneração ou patrocínio relacionado à publicação. O ofício foi encaminhado após denúncia apresentada pela campanha de Maria do Carmo (PL-AM), candidata ao governo estadual.
A reportagem havia sido produzida com base em informações divulgadas pela Polícia Civil sobre uma prisão e a apreensão de drogas e materiais de campanha da candidata, além de apuração própria do veículo. O episódio levanta preocupações sobre a proteção constitucional do sigilo da fonte e o uso de instrumentos institucionais para pressionar a imprensa durante a cobertura eleitoral.
Sobre o monitoramento
As informações apresentadas neste monitoramento resultam de uma análise sistemática de publicações no X e no Instagram, com dados coletados e processados pelo Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic), do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo. A CDJor publica boletins quinzenais para acompanhar a evolução dos ataques à imprensa durante a campanha eleitoral.
A metodologia considera publicações e comentários que envolvem candidatos, jornalistas e veículos, além de 652 termos e hashtags ofensivos. Os conteúdos filtrados passam por processamento e análise para identificar os ataques, suas características e o gênero dos jornalistas atingidos.






