É motivo de repúdio a decisão da Rede Record de entrevistar Marco Antônio Heredia Viveros, ex-marido de Maria da Penha e condenado pelas graves violências cometidas contra ela, que a deixaram paraplégica.
A entrevista não chegou a ser exibida. A Justiça proibiu sua veiculação após reconhecer que a exposição de Maria da Penha e de suas filhas contrariava medida protetiva vigente desde 2024. Na sequência, o Ministério Público requereu a prisão de Viveros pelo descumprimento da determinação judicial. A prisão ocorreu no dia 8 de agosto, apenas dois dias depois de a Lei Maria da Penha completar 20 anos.
O que causa indignação é a própria decisão editorial de procurar e entrevistar o homem que foi condenado pela violência que transformou Maria da Penha em símbolo mundial da luta contra a violência doméstica, oferecendo-lhe novamente um espaço de fala sobre uma história da qual ele é o agressor.
Há uma diferença fundamental entre ouvir alguém em nome do contraditório e dar protagonismo a um agressor condenado, cuja própria conduta, ao conceder a entrevista, resultou no descumprimento de uma medida protetiva e em sua prisão.
A escolha da emissora é ainda mais grave pelo contexto. Aos 20 anos da Lei Maria da Penha, quando o jornalismo deveria contribuir para reafirmar a importância da proteção às mulheres e os avanços produzidos pela legislação, a Record decidiu colocar o agressor de Maria da Penha novamente diante de um microfone.
A Justiça impediu que essa entrevista chegasse ao público. Mas o fato de ela ter sido produzida já é, por si só, um desserviço. Não é razoável transformar em fonte jornalística privilegiada justamente aquele cuja violência deu origem a uma das mais importantes mobilizações legislativas brasileiras de proteção às mulheres — especialmente quando ele continua descumprindo determinações judiciais destinadas a proteger a própria vítima e suas filhas.
Repudiamos a decisão da Rede Record de realizar essa entrevista. O jornalismo pode ouvir qualquer pessoa, mas responsabilidade editorial também significa saber quando uma entrevista não contribui para informar a sociedade, quando pode revitimizar uma mulher e quando acaba oferecendo espaço indevido a quem não deveria.
Brasília, 11 de agosto de 2026
Comissão Nacional de Mulheres da FENAJ






