Carta aberta às/aos jornalistas e ao povo brasileiro: Democracia e direitos, sempre! Retrocesso, não.

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Carta aberta às/aos jornalistas e ao povo brasileiro

Democracia e direitos, sempre! Retrocesso, não.

Há momentos na História em que não se posicionar também é uma escolha. O segundo turno das eleições presidenciais de 2026 é um desses momentos para o povo brasileiro e para a nossa categoria.

A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), entidade máxima de representação sindical da categoria no Brasil, dirige-se às jornalistas e aos jornalistas e a toda a sociedade brasileira movida por uma certeza construída em oito décadas de história: a democracia é a condição de existência para o livre exercício do Jornalismo.

Fundada em 1946, quando o Brasil ainda carregava as marcas da ditadura do Estado Novo, a FENAJ cresceu atravessando períodos de autoritarismo, censura e perseguição. Enfrentou os anos da ditadura civil-militar-empresarial, participou das lutas pela redemocratização, pela liberdade de imprensa, pela democratização da comunicação e pelos direitos de quem trabalha no Jornalismo.

Quando a democracia recua, uma das primeiras vítimas são aquelas que têm por ofício perguntar. Vladimir Herzog, Luiz Eduardo Merlino e tantos outros profissionais de imprensa foram assassinados porque ousaram realizar o seu trabalho.

Em 2022, afirmamos que determinados momentos históricos exigem posições firmes. Quatro anos depois, reafirmamos essa convicção. Não há neutralidade possível quando estão em debate conquistas democráticas e sociais construídas ao longo de décadas. Naquele segundo turno, a FENAJ assumiu posição em defesa do voto em Luiz Inácio Lula da Silva, relacionando sua escolha à democracia, à justiça social, à soberania nacional, aos direitos da classe trabalhadora e às liberdades de expressão e de imprensa.

No segundo turno das eleições presidenciais de 2026, o Brasil escolherá entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Não se trata apenas de uma escolha entre dois nomes. Estão em disputa projetos distintos para o país, para a democracia, para o mundo do trabalho e para a garantia de direitos.

Para as trabalhadoras e os trabalhadores, essa escolha tem consequências concretas. O programa apresentado por Lula prevê o fim da escala 6×1 e a redução da jornada para 40 horas semanais, além da valorização do salário mínimo e da promoção da igualdade salarial entre mulheres e homens. São propostas que apontam para a valorização do trabalho, a redução das desigualdades e a ampliação de direitos de quem vive do próprio trabalho.

O programa apresentado por Flávio Bolsonaro aponta para outra direção nas relações de trabalho e na concepção sobre o papel do Estado. Entre suas propostas estão a ampliação da prevalência do negociado sobre o legislado, a redução do chamado “custo do trabalho” e modalidades diferenciadas de contratação. O candidato segue defendendo o modelo da PEC das horas trabalhadas, que põe em risco a remuneração dos trabalhadores e, se aprovado, vai esvaziar a conquista da jornada de 5×2.

O documento de Flávio Bolsonaro também traz como diretriz “resistir à República Sindical”, além de prever reforma administrativa, corte de ministérios, retomada do Programa Nacional de Desestatização e um “revogaço regulatório”. Para uma entidade sindical de trabalhadores, esse conjunto de propostas suscita preocupação quanto à preservação e à ampliação de direitos, à força da organização coletiva dos trabalhadores e à proteção social.

A experiência recente do país deixou marcas profundas na categoria. Em sua carta aberta de 2022, a FENAJ registrou o crescimento das agressões contra jornalistas durante o governo Jair Bolsonaro e denunciou iniciativas que ameaçaram o registro profissional e a jornada especial dos jornalistas. A Federação também denunciou o desmonte da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), com aparelhamento, censura e perseguição a dirigentes sindicais. Naquele documento, a FENAJ registrou que as agressões à categoria haviam passado de 135 casos em 2018 para 430 em 2021.

Essa memória não pode ser apagada. Já alertávamos, desde 2018, para o que chamamos de “ovo da serpente neofascista” e, nos anos seguintes, denuncamos o avanço do autoritarismo, os ataques às instituições democráticas, à imprensa, aos direitos humanos e à própria atividade jornalística. Em outro posicionamento de 2022, ao tratar das agressões contra jornalistas, relacionamos essas práticas aos “fascistas do passado” e aos “neofascistas do presente”.

É por isso que, para nós, jornalistas, defender a democracia significa também defender as condições de existência e de exercício da nossa própria profissão.

Não existe Jornalismo livre onde a imprensa é intimidada. Não existe liberdade de expressão onde profissionais são perseguidos pelo trabalho que realizam. Não existe direito à informação onde a mentira e a desinformação substituem o debate público baseado em fatos.

É diante dessa experiência histórica que a FENAJ avalia o que está em disputa em 2026. Defender a democracia significa preservar a liberdade de imprensa, fortalecer as instituições democráticas, garantir o direito da sociedade à informação e proteger conquistas sociais e trabalhistas. É também avançar em nossas reivindicações, como o retorno do diploma como critério de acesso à profissão e novos direitos para a categoria.

Também não podemos aceitar retrocessos nos direitos das mulheres, da população negra, dos povos originários, das comunidades quilombolas, da população LGBTQIAPN+ e de todos aqueles e aquelas que historicamente enfrentam discriminação, violência e desigualdade.

Defender os direitos humanos não é uma escolha circunstancial.
Defender os direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores não é uma escolha circunstancial.
Defender a liberdade de imprensa não é uma escolha circunstancial.
Defender o Jornalismo não é uma escolha circunstancial.
Defender a democracia é uma escolha de princípio.

Diante dos projetos apresentados ao país, da experiência histórica recente e dos princípios que orientam nossa atuação, declaramos posição contrária à eleição de Flávio Bolsonaro e nosso apoio, no segundo turno das eleições presidenciais de 2026, a Luiz Inácio Lula da Silva.

Essa posição não significa adesão acrítica a governos, partidos ou candidaturas. A independência das entidades sindicais e a liberdade do Jornalismo continuarão sendo exercidas diante de qualquer governo eleito. No entanto, que cabe às organizações da sociedade civil se posicionarem quando direitos, liberdades e conquistas sociais estão em disputa.

A FENAJ continuará cobrando de quem ocupar a Presidência da República respeito à categoria das e dos jornalistas, valorização profissional, condições dignas de trabalho, liberdade de imprensa, fortalecimento da comunicação pública, enfrentamento à desinformação e compromisso efetivo com os direitos da classe trabalhadora.

Jornalistas têm lado.
O lado da democracia.
O lado dos direitos.
O lado da liberdade.
O lado do Jornalismo.
O lado das trabalhadoras e dos trabalhadores.
Democracia e direitos, sempre.
Retrocesso, não.

Brasília, 21 outubro de 2026.

Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ