Após meses de restrições indevidas a jornalistas e comunicadores sociais, empresa não oferece alternativa para preservar o exercício do direito à liberdade de expressão
Violência digital contra jornalistas cresce 74%
Durante o período eleitoral, os ataques à imprensa se intensificaram. A Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor) identificou 14.182 ataques digitais contra jornalistas e veículos de comunicação, com crescimento de 74% na média diária na reta final do primeiro turno. Ao mesmo tempo, a organização CTRL+Z reuniu 1.121 relatos de restrições a contas e conteúdos políticos, incluindo bloqueios e remoções sem justificativa específica. Os levantamentos expõem duas ameaças ao debate público: a escalada da violência contra quem produz informação e a falta de transparência nas decisões que podem restringir sua circulação, com potencial impacto no legítimo exercício da liberdade de expressão.
Em agosto, o Observatório encaminhou à Meta relatos de nove organizações da sociedade civil sobre 24 perfis jornalísticos com indícios de restrições sem explicações no Instagram, incluindo Mentira Tem Preço, Tapajós de Fato e Revista Cenarium. Em setembro, a suspensão do perfil Revelando o Brasil, posteriormente restabelecido, reforçou a preocupação com a garantia da liberdade de expressão nos meios digitais.
Diante desse histórico, o Observatório se reuniu com a Meta em 9 de outubro e formalizou a proposta de um canal institucional célere para o encaminhamento e acompanhamento de casos urgentes, incluindo ameaças, assédio, ataques digitais, bloqueios e suspensões de contas.
Proteger jornalistas é proteger o direito à informação
A importância dessa proteção é ainda maior em um cenário no qual, segundo a pesquisa Painel TIC – Integridade da Informação, 72% dos usuários brasileiros de internet com 16 anos ou mais acessam diariamente informações pelas redes sociais. Assim, ataques e restrições ao exercício do jornalismo ultrapassam a esfera individual e podem comprometer o direito de toda a sociedade à informação.
Esse entendimento encontra respaldo no direito internacional. A Opinião Consultiva OC-5/85 da Corte Interamericana de Direitos Humanos afirma que restringir a expressão de uma pessoa viola também o direito de todos de receber informação. A Relatoria Especial para Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, por sua vez, aponta que a violência contra jornalistas é a forma mais extrema de censura e atinge, ao mesmo tempo, a vítima, seus colegas, pelo efeito amedrontador, e o direito das sociedades de buscar e receber informação.
No Brasil, essa proteção encontra fundamento no art. 220 da Constituição Federal, que assegura a liberdade de informação jornalística e veda a censura, observado o disposto na própria Constituição.
Os canais gerais da Meta e a cooperação com a Justiça Eleitoral não substituem um mecanismo de proteção capaz de responder a situações urgentes de violência contra jornalistas, inclusive fora do período eleitoral. Apesar das sucessivas tratativas, a empresa não apresentou solução.
Maria Rosa Loula
Coordenadora do Observatório de Violência contra Jornalistas e Comunicadores Sociais
Secretária Nacional de Justiça
Ministério da Justiça e Segurança Pública
Victor Fernandes
Secretário Nacional de Direitos Digitais
Ministério da Justiça e Segurança Pública
Marina Pita
Secretária Substituta de Políticas Digitais
Secretaria de Comunicação Social







