Coojornal: Memória e História

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* José Antônio Vieira da Cunha

Longe de uma aventura ou um fugaz momento de rebeldia, na origem do Coojornal, o jornal dos jornalistas que marcou época nos anos 70 e 80, está um projeto que amadureceu após meses de discussão, seguidos de meses de trabalho.

No início dos anos 70, ditadura no apogeu, sindicatos atrofiados e imprensa amordaçada, jornalistas trocavam ideias sobre aqueles momentos difíceis e tentavam encontrar alternativas. No fundo, a vontade que aqueles profissionais alimentavam, ontem como hoje, era a de ter um jornal em que pudessem decidir sobre sua linha editorial, ter influência direta sobre a pauta, a escolha de fontes, os rumos do investimento, enfim, sobre todo o processo.

Foi uma pequena nota publicada em um diário paulista que apresentou o ovo de Colombo: em Milão, Il Giornale era um jornal que prosperava a partir de uma cooperativa de editores. Por que não se tentar uma saída semelhante aqui? 

Cooperativismo era um princípio vitorioso naqueles tempos, com grandes cooperativas de trigo e soja levando prosperidade e modernidade ao interior do Rio Grande do Sul. Mas uma cooperativa de jornalistas?! O Incra, órgão federal que regulava o sistema no País, hesitou, mas se rendeu às evidências de que jornalistas poderiam, sim, unir-se em torno desta ideia.

Ideia que foi muito bem recebida por todos os que, na medida em que ela frutificava, a ela aderiam. Afinal, o cooperativismo tinha, e tem, princípios universais que consagram a participação: reúne pessoas com interesses comuns, cada um tem direito a um voto em assembleia, independente do tamanho de seu capital, não visa lucros como fim imediato.

Depois de meses de avaliação, uma ampla divulgação em redações e nos jornais anunciava que no dia 24 de agosto de 1974 seria fundada uma cooperativa de jornalistas, e todos os profissionais interessados poderiam dela participar. Para surpresa e alegria dos que idealizaram o projeto, 67 jornalistas compareceram naquele sábado à tarde na sede da ARI (Associação Riograndense de Imprensa) para serem os fundadores da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre Ltda.

Apenas um não se sentiu tocado, enquanto 66 apostaram na ideia e criaram ali a sociedade que assumiu a sigla Coojornal, síntese da entidade e do que todos sonhavam, ter um jornal próprio. O caminho revelou-se naturalmente difícil para uma empresa criada por assalariados – que, disciplinadamente, decidiram durante algum tempo capitalizar a empresa, e para isso passaram a pagar uma mensalidade de alguns cruzeiros, a moeda vigente.

Seis meses depois, abriu-se a janela da prestação de serviços: a cooperativa dedicou-se a prestar serviços para terceiros, fossem empresas, sindicatos, órgãos públicos, contemplando duas necessidades importantes, a de fortalecer sua musculatura como organização e, melhor, a de oferecer oportunidades de trabalho para seus associados.

Deu certo, muito certo, e em poucos meses dezenas de profissionais já estavam atuando ali, produzindo boletins, jornais, revistas para estes clientes. Em novembro de 1975, outra decisão: criar um boletim para ser um elo de informação entre cooperativa e cooperativados. Deu-se a ele o mesmo nome dela, Coojornal. E foi aí que tudo começou. Um ano depois, em outubro, foi para as bancas o mensário que faria história na imprensa brasileira.

Resgatar a memória da Coojornal não diz respeito apenas ao grupo de jornalistas que participaram daquela experiência, mas à própria história da imprensa no Rio Grande do Sul. A Cooperativa dos Jornalistas resultou de uma reação a uma situação que oprimia toda a imprensa gaúcha, assim como a brasileira, naqueles tempos sombrios. Por tudo isso e porque, cada vez mais, a imprensa é fonte a que recorrem os pesquisadores e historiadores, é importante evitar que prosperem equívocos repetidos em artigos e reportagens.

Então, corrijam-se as versões enviesadas que vicejam por aí. Uma delas é o entendimento de que a cooperativa nasceu a partir da demissão de 21 jornalistas da Folha da Manhã, tão difundida a ponto de levar ao engano mesmo jornalistas experientes. Não foi de uma crise na Folhinha, esta ocorrida em outubro de 1975, que surgiu a cooperativa ou seu jornal – que, aliás, já existia como boletim e noticiou esta crise. Em sua origem não está o ímpeto de um grupo de desempregados. Ao contrário, foi madura a decisão pela criação da cooperativa, como foi maduro e responsável o jornal que ela viu crescer famoso e respeitado em todo o País.

No final da década de 70, o Coojornal circulava nas principais cidades brasileiras, com uma tiragem de cerca de 33 mil exemplares, número extraordinário para a época e para o tipo de jornalismo que se exercia. Não à toa, foi considerado um dos cinco alternativos mais importantes na imprensa brasileira, como registrado em livros como ‘Jornalistas e Revolucionários’, de Bernardo Kucinski.

Revolucionou o Jornalismo que se praticava aqui porque foi, antes de tudo, um projeto de jornalistas, de profissionais, antes de ser uma publicação com conotação ideológica, como seus similares da época, Movimento e Opinião à frente da lista. Mesmo assim, também teve embates com os governos e com a censura em função de seu conteúdo crítico e contundente em relação ao momento político que se vivia. 

A Cooperativa dos Jornalistas também foi revolucionária à sua maneira. Pioneira no meio, inspirou a criação de outras 12 nas principais capitais brasileiras. Em seu melhor momento, em 1979 e 1980, era a principal fonte de renda, quando não a única, de quase 100 profissionais. Chegou a ter cerca de 450 associados, quase uma centena deles de fora do Estado, aderentes à causa para atuar como correspondentes ou por simpatia e estímulo a uma iniciativa que abria horizontes.

Estes são os fatos, contados por quem viveu a história. São fundamentais serem reavivados agora, quando se está reabilitando a memória da Coojornal com base em depoimentos das pessoas que a viveram – porque essas memórias serão a base da história que se vai escrever futuramente.

* Jornalista e um dos fundadores do Coojornal