GloboNews transforma misoginia em espetáculo e falha com responsabilidade pública

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A noite da última terça-feira (12/05) na Globonews ficará marcada como um exemplo preocupante de como o jornalismo pode falhar em sua responsabilidade pública quando transforma discursos machistas em espetáculo televisivo.

O programa comandado por Julia Duailibi, com a participação de Juliano Cazarré, Vera Iaconelli e Ismael dos Anjos, foi apresentado como um debate sobre “educação e o papel dos homens nos tempos atuais”, mas acabou servindo de palco para a propagação de desinformação, relativizações perigosas e discursos que alimentam a misoginia.

A escolha de quem entrevistar e a quem amplificar voz também está sob o escrutínio da ética profissional. Não se trata de impedir o debate de ideias. Trata-se de compreender que o jornalismo possui limites, responsabilidades públicas e compromisso com os direitos humanos. Uma emissora que opera por meio de concessão pública não pode naturalizar discursos machistas e autoritários sob a justificativa de “ouvir todos os lados”.

Juliano Cazarré não apareceu no programa apenas como alguém disposto ao debate. Há tempos vem utilizando sua visibilidade para disseminar desinformação e alimentar narrativas de perseguição às mulheres e ao feminismo, apostando na polêmica como método de projeção pública. Diante disso, caberia à mediação jornalística contextualizar, confrontar dados falsos e impedir que mentiras fossem apresentadas como opinião legítima.

Mas o que se viu foi o contrário: afirmações equivocadas e falas carregadas de desinformação foram deixadas no ar sem contestação adequada. O esforço de contraponto acabou recaindo sobre os outros convidados, enquanto a condução do programa priorizava o conflito e os cortes virais em vez do compromisso com a informação qualificada.

Num país que registra índices alarmantes de violência contra as mulheres e sucessivos recordes de feminicídio, transformar discursos misóginos em entretenimento televisivo não é neutralidade jornalística. É uma escolha editorial com consequências concretas.

O jornalismo não pode servir como instrumento de legitimação do machismo, ainda que sob o argumento da pluralidade de opiniões. Não há simetria possível entre a defesa dos direitos humanos e discursos que buscam relativizá-los ou atacá-los.

Diante da desinformação que alimenta o autoritarismo, o fascismo e a misoginia, só existe um lugar ético para o jornalismo: o enfrentamento responsável, a contextualização rigorosa dos fatos e o compromisso inegociável com a democracia e a dignidade humana.

Brasília, 14 de maio de 2026

Comissão Nacional de Mulheres Jornalistas da FENAJ