Estudo global da FIJ expõe vigilância sistêmica mundial contra jornalistas

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A Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), a maior organização de jornalistas do mundo, lançou em 28 de abril um estudo investigativo histórico que expõe como jornalistas em todo o mundo estão sujeitos a uma infraestrutura sistêmica de controle por meio de tecnologias de vigilância digital cada vez mais sofisticadas. O estudo apresenta recomendações urgentes para fortalecer a segurança dos jornalistas e proteger a mídia.

O estudo da FIJ, “Vigilância Global de Jornalistas: Um Mapeamento Técnico de Ferramentas, Táticas e Ameaças”, oferece uma visão geral única e abrangente do ecossistema de vigilância que jornalistas enfrentam em todo o mundo e suas consequências de longo alcance para o jornalismo independente. Revela como práticas antes limitadas a operações estatais isoladas evoluíram para uma indústria global que envolve fornecedores comerciais de spyware, infraestrutura de telecomunicações e supervisão frágil ou inexistente.

Com base em entrevistas com especialistas em cibersegurança, analistas forenses e jornalistas de diversas partes do mundo, bem como em documentação técnica e investigações verificadas entre 2021 e 2025, o estudo da FIJ pinta um quadro sombrio de como o ato de reportar se tornou intrinsecamente ligado ao risco de ser vigiado, rastreado ou hackeado.

Caso da Abin de Bolsonaro

O levantamento da FIJ cita o Brasil, especificamente o caso da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que, durante o governo do então presidente Jair Bolsonaro, fez uso indevido de uma plataforma de rastreamento de celulares conhecida como FirstMile para geolocalizar milhares de dispositivos sem mandado judicial, incluindo, supostamente, opositores políticos e jornalistas.

A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP), a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a ARTIGO 19 protocolaram uma ação civil pública conjunta contra a União, denunciando o uso da máquina pública para o monitoramento ilegal de jornalistas e comunicadores.

A ação reforça a preocupação das organizações com as novas fronteiras da violência contra jornalistas, alertando que o uso de softwares espiões e sistemas de inteligência é uma tendência alarmante no cenário nacional.  Dentre os pedidos finais da ação, destaca-se a indenização por danos morais coletivos à categoria dos jornalistas. O objetivo é a responsabilização histórica da União pelas graves violações praticadas por agentes que, durante o governo Bolsonaro, monitoraram indevidamente a localização de profissionais de imprensa.

A normalização da vigilância

As conclusões da FIJ mostram como e-mails de phishing comuns, sites falsos e softwares de perseguição “prontos para uso” agora coexistem com spyware de nível estatal, criando um contínuo de ameaças de vigilância contra jornalistas. 

O estudo demonstra como softwares espiões sofisticados, antes reservados para a inteligência militar – como o Pegasus, o Predator e o Graphite – foram repaginados como tecnologia de “interceptação legal” e comercializados para governos em todo o mundo. Essas ferramentas de espionagem agora oferecem recursos chamados de “zero cliques” ou de “um clique”, altamente intrusivos, permitindo que dispositivos sejam comprometidos sem interação significativa do usuário. 

Nos estudos de caso analisados, o relatório aponta para um padrão semelhante: a convergência entre spyware comercial, inteligência estatal e supervisão deficiente. O relatório retrata um mundo em que as exportações de spyware são frequentemente desregulamentadas, a supervisão legal, parlamentar e/ou independente é inexistente e a responsabilização por abusos torna-se praticamente impossível.

A inteligência artificial automatiza a vigilância

O estudo mostra como os dados coletados por meio desses mecanismos são inseridos em painéis de inteligência artificial (IA) que correlacionam chamadas, mensagens, dados de geolocalização e atividades online – automatizando a vigilância em uma escala antes inimaginável.

“Em zonas de conflito, como Gaza ou a Ucrânia, os sistemas de IA agora combinam dados de telecomunicações e de drones para identificar e rastrear jornalistas, tornando tênue a linha divisória entre observação e perseguição física”, afirma a FIJ.

Estudos de caso comparativos entre países

O relatório apresenta uma série de estudos de caso de países que abrangem regiões e sistemas políticos.

Esses casos documentados confirmaram incidentes de vigilância digital contra jornalistas, identificando as ferramentas utilizadas, incluindo spyware comercial, interceptação de telecomunicações e extração forense, bem como os atores estatais, institucionais ou corporativos envolvidos. 

Entre os casos analisados, as alegações na Grécia apontam para o uso indevido de recursos legais de interceptação para monitorar jornalistas, juntamente com o escândalo separado do spyware Predator, destacando como diferentes camadas de vigilância podem convergir para atingir agentes da mídia. 

Quebrando o ciclo do abuso da vigilância

O estudo conclui com uma série de recomendações para combater “uma infraestrutura sistêmica de controle” e a necessidade de defesa coletiva, incluindo transparência nas exportações de spyware e responsabilização pelo seu uso, investimento em capacidade forense regional, treinamento em segurança digital para jornalistas e salvaguarda da criptografia e do anonimato como direitos fundamentais da liberdade de imprensa. 

O estudo foi escrito por Samar Al Halal, engenheira de computação e comunicação e especialista em segurança digital e direitos digitais, revisado pelo pesquisador e consultor independente em cibersegurança e privacidade Lukasz Olejnik  e encomendado pela FIJ como parte de sua contribuição para o projeto  Brave Media, um consórcio global de nove organizações liderado pela BBC Media Action.

A vigilância é a arma usada para matar silenciosamente a liberdade de expressão. Quando jornalistas são vigiados, fontes desaparecem, investigações são interrompidas e a autocensura se torna normal. Quando as fontes sabem que jornalistas estão sendo monitorados, elas param de falar. Quando repórteres se autocensuram para se proteger, o público perde o acesso à verdade. O público não perde apenas informação, perde a capacidade de responsabilizar o poder”, observou Samar Al Halal. “Quando a vigilância se torna normal, a democracia se transforma em um espetáculo; ela é vista, sim, mas deixa de ser real.”

 

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