FENAJ discute impactos da Lei do Multimídia e precarização da profissão de jornalista no ENEjor 2026

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A abertura do 25º Encontro Nacional de Ensino de Jornalismo (ENEJor), ocorrido entre os dias 22 e 24 de abril, na Universidade de Brasília (UnB), foi marcada por um debate sobre o Jornalismo no Brasil e os rumos da profissão de jornalista.

A 21ª edição do Pré-fórum do ENEjor, sempre realizado pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) reuniu acadêmicos, professores e representantes sindicais para discutir o tema “Jornalismo em disputa: profissão multimídia, formação e direitos diante da precarização do trabalho”.

A mesa, mediada pela presidente da Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (ABEJ), professora-doutora Marluce Zacariotti, destacou a urgência de uma união entre universidades e sindicatos para enfrentar os desafios impostos pela Lei 15.325/2026 (Lei do Multimídia).

Para a presidente da ABEJ, o momento é histórico e exige que a academia apoie as pautas de luta da federação em defesa dos direitos e da qualidade do ensino.

Lei do Multimídia e a crítica da FENAJ

O secretário de Relações Institucionais da FENAJ, Antônio Paulo Santos, apresentou duras críticas à nova legislação, sancionada pelo presidente da República, em janeiro de 2026. Segundo ele, a lei foi aprovada, pelo Congresso Nacional, a toque de caixa e sem a consulta de entidades de classe, oficializando a profissão de multimídia de nível superior e técnico, mas sem a obrigatoriedade de formação específica.

“Qualquer influencer ou pessoa que se arvore em fazer conteúdo de notícia é multimídia”, alertou Antônio Paulo. O dirigente da FENAJ ressaltou que a lei favorece o acúmulo de funções, onde um único profissional apura, escreve, filma, edita e publica, o que resulta em sobrecarga física e mental, além de perdas salariais e de direitos.

“O modelo multimídia, de forma como vem sendo implementado, não amplia o jornalismo, mas precariza o trabalho do jornalista. Além disso, a Lei do Multimídia avança sobre outras profissões da comunicação, como publicidade e audiovisual. Dessa forma, cria um cenário de sombreamento profissional, onde as fronteiras entre funções públicas são diluídas, não para valorizar o trabalho, mas para flexibilizar direitos”, afirmou Antônio Paulo.

Ações de resistência

Como resposta, a FENAJ reforçou a luta pela PEC do Diploma (PEC 206/2012) – aguardando votação na Câmara dos Deputados desde 2012 – como forma de garantir a qualificação técnica e a função social do jornalismo.

“A medida valoriza a profissão, é uma resposta à precarização e, ao fim e ao cabo, trata-se de garantir qualidade na informação. E é esse chamado que a FENAJ faz a toda a categoria e aos estudantes de jornalismo: continuar a luta pela aprovação da PEC do Diploma, na Câmara dos Deputados, e derrubar a Lei do Multimídia, seja no Congresso Nacional, por parte do governo federal e até no Supremo Tribunal Federal. Pois, essas conquistas vão dar mais qualidade à informação, a valorização profissional e do jornalismo como um todo”, finalizou Antônio Paulo Santos.

Futuro do jornalismo e da profissão

O coordenador-geral do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal (SJPDF) e secretário-adjunto de Relações Institucionais da FENAJ, Marcos Urupá, disse que é preciso garantir direitos nesse cenário de convergência tecnológica por qual passou o processo produtivo de fazer jornalismo.

Para Urupá, é importante sempre observar se nesse processo, o jornalista não está sobrecarregado de tarefas, com acúmulo de função se receber uma boa remuneração compatível com tais tarefas.

“É importante que tenhamos sempre em mente a saúde mental e física do jornalista. Hoje, com a convergência tecnológica, vemos diversos colegas sendo cinegrafista, fotógrafo, apresentador, repórter ao mesmo tempo. Precisamos observar o nível de tarefas exercidas para não sobrecarregar esse profissional”, disse o representante do SJPDF.

Mundo do trabalho nas faculdades

Outro aspecto, destacado por Urupá, envolve preparar os estudantes de jornalismo para enfrentar esse cenário, tendo em mente que serão futuros profissionais e trabalhadores que precisam enfrentar um mercado onde existe precarização que precisa ser denunciada.

“Para isso, seria importante que as Faculdades de Comunicação ensinassem aspectos sobre o mundo do trabalho em jornalismo e de como a comunicação, em especial o jornalismo, é impactado pelas tecnologias, especialmente em tempos de Inteligência Artificial (IA)”, afirmou Marcos Urupá.

Ocupa Brasília

Sobre a Lei do Multimídia, o coordenador-geral do SJPDF disse que é um ataque à profissão de jornalista. Urupá destacou que no começo de abril, a FENAJ realizou o “Ocupa Brasília”, sendo esta uma das principais agendas da ação.

“Nós, da FENAJ já conseguimos na justiça evitar a criação de um sindicato nacional dos multimídias. Estamos dialogando com diversos ministérios e autoridades para mostrar o quanto essa legislação ataca profissões seculares, como jornalistas e radialistas. Também estamos estudando uma ação no STF para mostrar a inconstitucionalidade dessa lei”, afirmou o representante do SJPDF.

Desafio da formação e o engajamento acadêmico

Um dos pontos altos do debate foi a participação do professor-doutor Alan Rodrigues, do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Citado por Antônio Paulo como uma referência de sua terra natal, o professor Alan levantou preocupações sobre o engajamento de docentes e discentes nas lutas sindicais.

Alan Rodrigues alertou para um afastamento identitário, onde muitos professores se veem apenas como pesquisadores ou comunicólogos, e não como jornalistas, o que reflete na falta de compromisso político dos estudantes com a profissão.

“Nós estamos falhando. As pessoas que estão entrando nos cursos não se sentem jornalistas e não têm compromisso com essa profissão”, pontuou o professor. Ele defendeu a necessidade de inserir a discussão sobre o mundo do trabalho e o movimento sindical de forma obrigatória no currículo.

Encaminhamentos

Ao encerrar a mesa, a professora Marluce Zacariotti propôs a criação de um Grupo de Trabalho (GT) institucional entre a ABEJ e a FENAJ para elaborar um documento conjunto que defenda a dignidade da profissão e a qualidade da formação.

O objetivo é que a academia não apenas forme tecnicamente, mas desperte a percepção ética e crítica dos futuros jornalistas diante das pressões do mercado.