Quinta matéria da série “O Trabalho de Jornalistas no Brasil” mostra que, quando mais alto o cargo, maior o diferença de remuneração média entre homens e muheres

As mulheres já representam metade dos profissionais do jornalismo com carteira assinada no Brasil. Em 2025, eram 25.184 mulheres entre os 50.330 vínculos formais registrados em funções do jornalismo, o equivalente a 50% da categoria. A igualdade numérica, entretanto, não se traduz completamente em igualdade salarial.
A remuneração média dos homens empregados formalmente em funções do jornalismo foi de R$ 7.005,37 em 2025, enquanto a das mulheres ficou em R$ 6.934,11. A diferença é de R$ 71,26 por mês, ou aproximadamente 1%. A remuneração média geral da categoria foi de R$ 6.969,71.
Os dados são do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com base na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), e fazem parte do estudo que traça o perfil dos jornalistas no mercado formal brasileiro, realizado para a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ).
A participação feminina não é recente nem pontual. Segundo o levantamento, a presença das mulheres no jornalismo formal permanece relativamente estável há anos, oscilando entre 49% e 51% dos vínculos desde 2006. Em 2025, portanto, mulheres e homens praticamente dividiam igualmente os postos formais da categoria.
Embora a diferença salarial média entre gêneros seja relativamente pequena quando considerados todos os vínculos, a análise por função revela desigualdades muito mais expressivas — especialmente nas posições de maior responsabilidade.
Diferença chega a 40% na direção de redação
O caso mais significativo identificado pelo Dieese está justamente em uma função de chefia: diretor(a) de redação. Em 2025, os homens que ocupavam essa função recebiam, em média, R$ 13.767,68, enquanto as mulheres tinham remuneração média de R$ 8.288,92. Na prática, as mulheres recebiam cerca de 60% do valor pago aos homens, uma diferença de aproximadamente 40%.
O contraste chama atenção porque ocorre justamente em uma posição de comando dentro das estruturas jornalísticas. O dado indica que a presença feminina na categoria não significa, necessariamente, igualdade no acesso às posições de maior remuneração e poder.
Na ocupação de jornalista, que reunia 10.438 vínculos, as mulheres eram maioria: 5.956, contra 4.482 homens. Apesar disso, a remuneração média delas ficou ligeiramente abaixo da masculina: R$ 10.110,81, contra R$ 10.187,61.
O mesmo ocorre entre os revisores de texto, outra função majoritariamente feminina. Eram 2.279 mulheres e 858 homens, mas a remuneração média feminina era de R$ 4.657,37, inferior aos R$ 5.253,15 recebidos pelos homens.
Mulheres são maioria em algumas das principais funções
Os dados mostram que a presença feminina é particularmente expressiva em algumas ocupações. Na função de jornalista, as mulheres representam aproximadamente 57% dos vínculos: 5.956 profissionais contra 4.482 homens. Já entre revisores de texto, elas são quase 73% da força de trabalho: 2.279 mulheres contra 858 homens.
Também há predominância feminina entre produtores de texto — 918 mulheres contra 625 homens — e redatores de textos técnicos — 1.157 mulheres contra 779 homens. A presença das mulheres, portanto, não está restrita às funções tradicionalmente associadas à produção de conteúdo. Elas estão espalhadas por diferentes áreas do jornalismo e, em algumas delas, já são maioria.
Para a presidenta da FENAJ, Samira de Castro, os dados mostram que a presença crescente das mulheres no jornalismo não foi acompanhada, na mesma medida, pela garantia de igualdade nas condições de trabalho.
“As mulheres já representam metade dos jornalistas com vínculo formal no Brasil. É uma conquista importante, mas os números mostram que ainda estamos longe de uma igualdade efetiva. A diferença salarial média pode parecer pequena quando olhamos o conjunto da categoria, mas, quando observamos determinadas funções, especialmente os cargos de chefia, a desigualdade se torna muito mais evidente.”
Para a dirigente sindical, o desafio passa também pelo combate às estruturas que dificultam a ascensão profissional das mulheres.
“Não basta que as mulheres estejam nas redações, nas assessorias e nos demais espaços de trabalho. É preciso garantir que elas tenham as mesmas oportunidades de crescimento, remuneração e acesso aos cargos de decisão. A valorização do jornalismo passa necessariamente pela valorização das mulheres jornalistas.”
Quando a igualdade aparece — e quando desaparece
O levantamento do Dieese mostra que a desigualdade salarial entre homens e mulheres não ocorre da mesma maneira em todas as ocupações. Em algumas funções, as mulheres recebem mais que os homens. É o caso dos assessores de imprensa, das âncoras de rádio e televisão e dos comentaristas de rádio e televisão. Entre os âncoras, por exemplo, a remuneração média feminina foi de R$ 9.688,64, contra R$ 8.834,66 dos homens.
Em outras, entretanto, a diferença favorece significativamente os homens. Além da direção de redação, há disparidades entre repórteres fotográficos, revisores de texto e algumas funções editoriais.
Por isso, a média geral de apenas 1% de diferença precisa ser lida com cautela. Ela é resultado da composição de diferentes ocupações, níveis de responsabilidade e estruturas salariais. Quando os dados são abertos por função, as desigualdades se tornam muito mais visíveis.
Preaença em espaços de organização
A secretária de Gênero, Raça e Etnia da FENAJ, Germana McGregor, chama atenção para o fato da presença das mulheres no jornalismo necessitar também ser refletida nos espaços de organização e decisão da categoria.
“Precisamos ampliar a participação das mulheres nas direções dos sindicatos e nas entidades de representação profissional, mas também fortalecer a auto-organização das jornalistas, por meio de coletivos, grupos de mulheres e espaços permanentes de debate e construção política.”
Para Germana, quando as mulheres se organizam, conseguem identificar problemas que muitas vezes permanecem invisíveis nas estruturas tradicionais e construir estratégias coletivas para enfrentá-los. “A auto-organização é fundamental para que as jornalistas tenham voz ativa na definição das pautas do movimento sindical e para que questões como desigualdade salarial, assédio, violência, condições de trabalho e participação nos espaços de poder sejam tratadas como prioridades”, afirma.
“Não basta termos mulheres em grande número na categoria. Precisamos ter mulheres ocupando os espaços onde as decisões são tomadas, formulando políticas para a categoria e construindo coletivamente as mudanças que queremos. A organização das mulheres jornalistas é uma ferramenta de transformação do próprio movimento sindical.”






