Poranga Marandúa: FENAJ participa do lançamento do primeiro Manual de Jornalismo Indígena do Brasil

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Obra inédita, construída de forma coletiva, propõe mudança de paradigma na cobertura da imprensa brasileira; FENAJ apoia a iniciativa e destaca o protagonismo das mulheres na comunicação

Foto: Ana Clara Gonçalves/Abrinjor

 

Na manhã de segunda-feira (10), a Câmara dos Deputados, em Brasília (DF), foi palco de um marco histórico para o jornalismo e a democracia no país: o lançamento oficial do Poranga Marandúa – Manual de Jornalismo Indígena. A publicação é a primeira ferramenta do gênero no Brasil elaborada, integralmente, por indígenas jornalistas, para orientar profissionais de imprensa na cobertura sobre os povos originários a partir de suas próprias perspectivas, saberes e realidades.

A expressão “Poranga Marandúa”, que dá título à obra, significa “boa notícia” na língua Nheengatu, pertencente à família Tupi-Guarani. Desenvolvido ao longo de um ano e meio de trabalho pela Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor), o material foi editado e revisado pela Organização Indígena Instituto Kaingáng (Inka) e está disponível para acesso online, de forma totalmente gratuita. Acesse aqui. 

O evento ocorreu no Auditório Freitas Nobre, no Anexo IV da Câmara, e reuniu integrantes da Abrinjor, lideranças indígenas, jornalistas, representações parlamentares, acadêmicas e pesquisadoras. A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) esteve presente e apoiou ativamente a iniciativa.

FENAJ celebra o momento histórico
Representando a federação, a primeira-secretária da FENAJ, Renata Maffezoli, destacou o privilégio de participar de um momento histórico do jornalismo brasileiro. Ela considerou a publicação fundamental para que o jornalismo possa aprofundar sua função social de desconstrução das opressões e garantia da diversidade de vozes.

“Nós, da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), apoiamos e celebramos com imenso orgulho esse passo histórico para o jornalismo brasileiro e para a democratização da comunicação em nosso país. O direito à comunicação é direito humano constitucional e fundamental para o exercício de todos os outros direitos. Esse manual, mais que apresentar normas e regras, traz uma possibilidade de pensar um outro jornalismo, antirracista e mais plural e diverso”, afirmou Maffezoli.

A dirigente sindical destacou que as orientações propostas pelo manual superam a barreira do mero guia de redação técnica. “Este manual não é apenas um guia técnico; é um chamado ético para que possamos desconstruir estereótipos historicamente sustentados por grande parte da imprensa brasileira e para que colegas jornalistas reconheçam os povos indígenas como os verdadeiros especialistas e protagonistas de suas próprias narrativas e também como fontes de informação de diferentes saberes. Sua leitura deve ser obrigatória em todos os cursos de jornalismo e em todas as redações do país. A FENAJ se compromete em ampliar a divulgação desse material essencial”, reforçou.

Maffezoli também ressaltou a ampla presença de mulheres na construção do Manual e no próprio evento. “É uma alegria e um conforto estar num espaço com tantas mulheres. A expressiva presença e liderança das mulheres indígenas jornalistas na comunicação, que imprimiram sua diversidade e força na construção desse material, é inspiradora”, acrescentou.

A primeira-secretária concluiu reafirmando a missão da entidade no combate ao racismo estrutural nas redações e na luta por um outro jornalismo possível. “A FENAJ reafirma o seu compromisso de seguir combatendo o racismo estrutural, o machismo e todas as formas de opressão. Esse lançamento nos permite esperançar um outro tipo de jornalismo: plural, diverso, antirracista e antimachista, que ajude a eliminar toda e qualquer forma de opressão”, declarou.

Foto: Renata Maffezoli

“Nunca mais o jornalismo sem a presença indígena”
O Poranga Marandúa – Manual de Jornalismo Indígena foi desenvolvido pela Abrinjor, articulação que reúne mais de 70 indígenas jornalistas e estudantes de jornalismo de mais de 40 povos diferentes, abrangendo todos os biomas do Brasil.  O processo de elaboração do material durou mais de um ano e foi pautado pela construção estritamente coletiva e horizontal. Para Luan Tremembé, um dos coordenadores gerais da Articulação, o manual é como um filho gestado com amor e muito trabalho.

Durante a mesa de lançamento, Luan ressaltou a importância política de os povos indígenas ocuparem de vez o debate comunicacional. “Hoje, felicidade por percorrer esse caminho de mais de um ano de construção desse filho […] que hoje a gente está apresentando ao mundo a nossa contribuição, entregando-o com o sonho de que a gente transforme o jornalismo no Brasil”, afirmou.

Luan relembrou uma famosa frase de Sônia Guajajara – “Nunca mais um Brasil sem nós” -para explicar como o grupo ressignificou a expressão para marcar o território da comunicação brasileira. “A Sônia sempre falava ‘nunca mais o Brasil sem nós’. A gente adaptou a frase e disse ‘Nunca mais o jornalismo sem a nossa presença’. Então, esse manual esse momento, ele marca a história do jornalismo brasileiro”, disse.

A também coordenadora geral da Abrinjor, Luciene Kaxinawá, compartilhou um depoimento pessoal e emocionante sobre os desafios enfrentados ao longo de sua carreira profissional, iniciada precocemente, aos 16 anos, na afiliada de uma grande emissora em Porto Velho (RO). Ela relatou a solidão de crescer sem referências indígenas nas redações convencionais, tendo de enfrentar preconceitos e tentativas de apagamento de sua identidade.

“Estou muito, muito feliz de olhar para o lado de tantos parentes potentes aqui. […]. Muita gente tem referências no jornalismo, mas eu olhava e falava: qual é a minha referência? Eu vou ter que construir a minha própria referência. Eu nunca vi um indígena na televisão como jornalista. E isso foi um caminho muito doloroso”, contou.

Luciene relembrou que a quebra de paradigmas foi lenta e dolorosa. Inicialmente impedida de manifestar sua cultura nas telas, foi somente em 2023 que ela pôde apresentar um programa de televisão jornalístico portando suas pinturas e adereços tradicionais e falando em seu idioma.

Para ela, o manual Poranga Marandúa funciona como uma ferramenta de dupla via: educa a sociedade e orienta os veículos de comunicação sobre como acolher o profissional indígena de forma respeitosa, entendendo que o tempo e a organização comunitária possuem dinâmicas próprias. “O que a gente está fazendo hoje aqui também, além desse manual orientar como construir essa narrativa, mas é também como receber o indígena jornalista dentro de uma redação. Como respeitar esse jornalista dentro da redação e entender como é a construção do processo de produção de pauta. O relógio dentro da aldeia é diferente. O relógio das nossas lideranças e a hierarquia dentro das nossas comunidades é diferente. E evitar os equívocos que a gente ainda vê nos dias de hoje, de não chamar indígenas de índios, de falar que moramos em tribos, de falar que somos da selva”, observou.

A coordenadora geral da Abrinjor explicou que a força do coletivo e, em especial, a liderança das mulheres indígenas foram determinantes para que o material refletisse a riqueza cultural dos povos originários brasileiros. “A nossa articulação é composta por mais de 40 povos indígenas diferentes, pertencentes a todos os biomas do Brasil, e tem como grande força a presença das mulheres indígenas na comunicação. Este manual carrega essa diversidade e reafirma nosso compromisso com uma comunicação construída a partir dos nossos territórios, das nossas línguas e dos nossos modos de contar histórias”, detalhou.

Segundo Luciene, a publicação representa uma homenagem ao legado daqueles e daquelas que vieram antes, ao mesmo tempo em que aponta para o futuro da comunicação no país. “Também é uma homenagem aos nossos anciãos e anciãs, guardiões da memória, e aos comunicadores e comunicadoras indígenas que abriram caminhos muito antes de nós”, afirmou.

A coordenadora da Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas acrescentou que o manual é um manifesto em favor da escuta ativa e um ato de resistência. “Esse é um documento que mostra para os não indígenas, para os jornalistas não indígenas, como que nós queremos ser ouvidos, como nós queremos ser descritos e como nós queremos contar as nossas histórias. Por isso, esse é um ato de resistência dentro do jornalismo brasileiro”, concluiu.

Foto: Renata Maffezoli

Ferramenta pedagógica
Além de servir como guia de redação cotidiano para combater termos pejorativos, descontextualizações e silenciamentos históricos, o manual tem sido defendido como peça central na reforma dos currículos acadêmicos de comunicação. Durante a cerimônia, pesquisadoras e lideranças, como a comunicóloga Andreza Baré e Sônia Kaingáng (pioneira no jornalismo indígena e integrante do Instituto Kaingáng – Inka), ressaltaram que a ferramenta é pedagógica e ideal para uma formação acadêmica genuinamente antirracista.

A diretora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) e representante da Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (Abej), Dione Moura  saudou a publicação como um marco na história do jornalismo. A docente e pesquisadora lembrou o longo processo pela garantia de reserva de vagas a pessoas negras e indígenas nas universidades públicas e ressaltou que o Manual é mais um resultado de uma longa luta dos movimentos negros e indígenas por espaços historicamente negados aos seus povos.

Dione se comprometeu em levar o debate sobre a proposta de inclusão do material na ementa dos cursos de jornalismo para Abej. Ela também sugeriu realizar um painel de divulgação do Manual de Jornalismo Indígena no próximo Intercom, que acontece no início de setembro na capital federal.

Para a FENAJ, o lançamento do manual sinaliza uma oportunidade para que as redações de veículos de comunicação e as instituições de ensino de jornalismo reformulem a abordagem dada aos temas indígenas em suas coberturas e disciplinas. O documento fornece recomendações práticas de terminologias, uso de conceitos e contextualização histórica para pautas fundamentais como saúde, educação, território, cultura e a cobertura das mudanças climáticas.

A Federação reafirma seu compromisso com a construção de um jornalismo diverso, plural e democrático e irá contribuir para a ampla divulgação e utilização do Poranga Marandúa. “Seguiremos ao lado de todas as iniciativas que contribuam para garantir que a pluralidade do país seja devidamente retratada tanto nas reportagens quanto nas redações e assessorias de comunicação do país”, reforçou Renata Maffezoli.

Acesse aqui o Poranga Marandúa – Manual de Jornalismo Indígena