Quando a cabeça não pensa a profissão padece

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* Laércio Pimentel

Abri o Estadão de 9 de setembro e levei um susto. Uma chamada: Assessor de imprensa é jornalista? Era o tema do artigo do jornalista e professor da ECA, Eugênio Bucci. As indagações do autor serpenteavam entre a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 33/09, que restitui a obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão, e o fato de que a FENAJ, os demais órgãos sindicais e o próprio corpo profissional têm consolidado o profissional na função de assessoria de imprensa como membro comum à prática do jornalismo.

O meu espanto ocorreu porque o fato lembrou a discussão como tema remanescente à década de 80, no século passado, quando ainda pairava no ar tão insensata divisão. É como se voltássemos no tempo para discutir se a Terra é redonda.

O princípio da proposição do autor é de que o jornalista enquanto profissional da grande mídia está a serviço da sociedade enquanto que o jornalista, profissional de assessoria de imprensa, serve aos interesses da divulgação da empresa em que trabalha ou de seus clientes. Aqui cabe algumas reflexões: primeiro, sabemos por experiência própria que a grande mídia também tem seus interesses no trato editorial de suas mensagens ou notícias, tal como toda empresa. Nem por isso, nossos quixotescos batalhadores da imprensa podem ser aviltados do mérito de seu trabalho diário à frente do trato da notícia como fonte de democratização dos meios de comunicação.

Do outro lado, não menos distinta, é a tarefa do jornalista na função de assessor de imprensa, facilitando o intercâmbio entre a grande imprensa e a as corporações empresariais, batalhando anos a fio na melhoria da comunicação dessas organizações tanto no âmbito interno quanto externo, o que também é uma forma de democratização da comunicação. O mesmo confronto entre o que é necessário passar e o que a empresa deseja ver divulgado tem sido o peso da balança para ambos os lados ao longo dos anos, e bem sabemos disso. Ouso dizer que muitas das publicações patrocinadas dentro dos muros das empresas (não midiáticas) têm um perfil editorial mais independente do que muitos órgãos de imprensa, pode apostar. Então, não há motivo para tão jurássica proposição.

Penso que o exercício mais apropriado seria o da reflexão sobre o porquê de um espaço tão nobre e substancial para a divulgação de tal artigo? Por que nunca nos foi dada a mesma oportunidade para amparar o nosso ponto de vista sobre a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo? A quem interessa a partilha e o enfraquecimento das instituições representantes de todos os jornalistas, independente de suas funções? Por que discutir temas já batidos e de tão pouco valor agregado à profissão no momento em que devemos focar nossa energia na restituição de nossos direitos?

É, teacher, estamos numa época de pluralidade; num estágio em que a Comunicação deve ser vista como uma ciência; num momento em que os profissionais de comunicação já não podem mais ser vistos como commodities e o fruto de seu trabalho como um mero prato culinário – com todo respeito aos mestres da cozinha.

Após a aprovação da PEC, devemos somar forças para o aperfeiçoamento de nossa cátedra, para a melhoria de nossas universidades, para a pontencialização de nosso curriculum. Esta sim é a contestação que devemos fazer, pois o que está em jogo, no momento, não é uma mera divagação sobre funções oriundas da mesma formação, mas a cooptação de todas as funções do jornalismo por uma canetada, sob a égide de um errôneo julgamento. Temos que adotar uma visão de crescimento, não de divisão. Pois, quando a cabeça não pensa, a profissão é que padece.

* Jornalista, comanda a KFL Comunicações