Não há jornalismo independente forte sem jornalistas valorizados!

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Carta aberta da FENAJ e de 31 Sindicatos de Jornalistas Profissionais do país

Não é uma informação nova o fato de que vivemos em um país marcado por uma histórica e injusta concentração dos meios de comunicação. Durante décadas, um pequeno grupo de empresas limitou a pluralidade de vozes, enquadrou o debate público a partir de interesses particulares e restringiu o acesso da sociedade a informações verdadeiramente diversas.

O surgimento e a consolidação de veículos independentes, alternativos, populares e progressistas representam, portanto, uma conquista democrática de enorme importância. São iniciativas que ampliam o pluralismo, revelam pautas invisibilizadas, dão voz a setores historicamente excluídos e contribuem para a construção de um debate público democrático.

Como jornalistas que somos, sabemos bem das dificuldades enfrentadas por esse campo. Temos conhecimento da desigualdade na distribuição das verbas publicitárias, da concentração econômica que beneficia grandes grupos empresariais, da disputa desigual por recursos e da profunda crise de financiamento que afeta o jornalismo em escala global. Não ignoramos os desafios concretos que afetam a sustentabilidade desses projetos.

Compreender essas dificuldades, no entanto, não significa fechar os olhos para problemas que atingem duramente trabalhadores e trabalhadoras empregados nesses veículos. A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e os 31 Sindicatos de Jornalistas Profissionais atuantes no Brasil têm o dever de representar a categoria em todos os locais de trabalho. Nosso papel implica negociar acordos coletivos, defender empregos e salários, fiscalizar o cumprimento da legislação trabalhista e lutar por melhores condições de trabalho. Cabe-nos também a obrigação de denunciar práticas que precarizam a profissão, enfraquecem direitos e comprometem o futuro do jornalismo em todas as suas dimensões.

Não podemos aceitar a naturalização da pejotização como modelo permanente de contratação. A substituição fraudulenta de vínculos empregatícios por contratos de pessoa jurídica, em desacordo com a legislação trabalhista, precariza as relações de trabalho, enfraquece a proteção social e aprofunda a exploração de uma categoria que, ano após ano, se vê adoecida, sobrecarregada e desprotegida.

Da mesma forma, não podemos relativizar situações de assédio moral, sobrecarga de trabalho, ausência de transparência nas relações profissionais ou qualquer outra prática que já combatemos historicamente nos grandes conglomerados de comunicação. O fato de uma organização possuir uma linha editorial progressista não a isenta de cumprir sua responsabilidade social como empregadora — ao contrário, exige dela coerência.

Quem constrói um veículo de comunicação independente realiza uma tarefa de enorme relevância política e social. Mas, ao mesmo tempo, administra uma organização que depende do trabalho de profissionais. Jornalistas sob contrato são trabalhadoras(es) e não voluntárias(os). Têm deveres e direitos, como assalariadas(os) que são, e não podem abrir mão de garantias trabalhistas em nome de um projeto político ou editorial.

A defesa da democracia, da liberdade de expressão e do direito à informação não pode estar dissociada do respeito à dignidade das relações de trabalho e das condições laborais. Não há contradição maior do que defender direitos na esfera pública e sonegá-los dentro da própria redação.

Porém, infelizmente, o que muitas vezes ocorre é que as direções desses veículos encaram as legítimas reivindicações de seus jornalistas como uma afronta; e, não raro, enxergam o Sindicato de Jornalistas como um estorvo e um adversário, e não como uma entidade que tem como obrigação primeira a plena representação da categoria, de maneira independente.

Na realidade, e é deprimente ter de constatar esse fato, vários desses veículos acabam reproduzindo as piores práticas patronais da mídia empresarial: a pejotização, o assédio moral e a perseguição a dirigentes sindicais.

É legítimo que cada organização avalie seus limites financeiros e suas possibilidades concretas. O que não é legítimo é tentar expandir projetos, ampliar operações ou assumir compromissos que só se sustentam à custa da exploração e da retirada de direitos. A sustentabilidade de um veículo não pode ser construída sobre a precarização daqueles que produzem o jornalismo que é tão valorizado e consumido por um público que deseja alternativas à hegemonia comunicacional dos grandes meios e das big techs.

Este é um momento decisivo para o país. Nos próximos meses, enfrentaremos uma duríssima batalha marcada pela circulação massiva de desinformação, pela disseminação do discurso de ódio, pela ação organizada de estruturas de manipulação digital e pelo avanço de diferentes formas de obscurantismo e negacionismo. O jornalismo é uma das principais barreiras contra isso.

Defender o jornalismo independente, portanto, é fundamental: devemos cobrar soluções concretas para a sustentabilidade do campo, com a regulamentação das grandes plataformas digitais que se apropriam indevidamente do trabalho jornalístico. É urgente a apresentação de políticas públicas que valorizem o jornalismo, sem comprometer sua independência e qualidade.

Mas a defesa das e dos jornalistas que tornam esse jornalismo possível é igualmente indispensável. As reportagens que informam a sociedade, as investigações que revelam o que os poderosos desejam esconder e os conteúdos que ajudam a defender a democracia são produzidos por profissionais que precisam de salários dignos, contratos regulares, direitos garantidos, ambientes de trabalho saudáveis e condições adequadas para exercer sua função. Não haverá futuro para um jornalismo independente forte sem jornalistas valorizados.

Brasília, 17 de junho de 2026

Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ)

Sindicatos de Jornalistas do Brasil