|
* Sylvia Debossan Moretzsohn
“Contra a corrupção e o governo” era a frase mais repetida na cobertura das manifestações de domingo (15/3) na GloboNews. O professor Guilherme Nery, da Universidade Federal Fluminense, notou a insistência. Não era necessário ser estudioso do assunto, como ele, para perceber a associação semântica: governo = corrupção, e vice-versa. “É gritante a falta de responsabilidade”, concluiu. Martelar uma ideia até que ela seja incorporada pelo público e apareça como expressão espontânea – embora, ao contrário do que se costuma pensar, nada seja, de fato, espontâneo, porque nada surge do nada –, martelar uma ideia até transformá-la em suposta expressão espontânea de uma legítima e inquestionável reivindicação é uma conhecida estratégia da propaganda, que tem a ver com o conceito de “profecia autocumprida”. O sucesso ou fracasso dependerá da predisposição do público em aceitar a ideia. O jornalismo transformado em propaganda – esse que, segundo a própria entidade representante das grandes empresas que o produzem, anunciou que assumiria o papel que a oposição não estava conseguindo exercer – tentou essa estratégia no caso do mensalão. Não teve êxito, pelo menos não imediatamente: apesar de tudo, o PT venceu as eleições em 2010. Mas a estratégia se manteve e agora, diante do escândalo da Petrobras, finalmente parece render frutos. Há fatores concretos para a revolta? Evidentemente sim, e não é preciso ter estômago especialmente sensível para se chegar ao limiar do vômito diante da platitude com que os envolvidos na Operação Lava Jato expõem o sistema de distribuição de propinas milionárias. Mas imaginemos como o público se comportaria se outros escândalos tivessem sido investigados: o caso Sivam, a compra de votos para o segundo mandato de Fernando Henrique, a privatização das teles, o caso Banestado… O fio da meada Se quisermos entender como o movimento pró-impeachment ganhou as proporções atuais, precisaremos recuar até as vésperas do segundo turno, em outubro do ano passado, quando a Veja antecipou a distribuição de sua edição semanal para uma sexta-feira e saiu com a famosa capa – pela qual foi condenada a oferecer direito de resposta – acusando Dilma e Lula de saberem “de tudo”. (“Tudo”, como se recorda, era o esquema de corrupção na Petrobras, e a denúncia se baseava em depoimento do doleiro Alberto Youssef, pelo acordo de delação premiada.) O desdobramento é conhecido: no domingo seguinte, Dilma foi reeleita por pequena margem e já na segunda-feira um grupo saía às ruas de São Paulo para pedir o impeachment. Trinta pessoas: uma irrelevância que, entretanto, O Globo transformou em notícia. Ao mesmo tempo, a eleição era posta sob suspeita pelo PSDB, que ensaiou um pedido de recontagem de votos. Foi-se consolidando, entre os derrotados, o sentimento de que o governo era espúrio e precisava ser derrubado. O cúmulo da parcialidade Na semana que culminou com a monumental manifestação em São Paulo, a Folha de S.Paulo foi “desequilibrada”, ora com a avalanche de notícias negativas para o governo, ora com o tratamento díspare dedicado aos atos a favor e contra Dilma.<ahref=”http: www1.folha.uol.com.br=”” colunas=”” veraguimaraesmartins=”” 2015=”” 03=”” 1602962-a-volta-do-classico-agora-em-campo-minado.shtml”=”” target=”_blank”>Assim avaliou a ombudsman do jornal, que entretanto não apontou o cúmulo da parcialidade, revelado num detalhe: ao pé de reportagem sobre os protestos, na página 6 do caderno principal da edição de 10/3, o jornal publicava um quadro no estilo “serviço”, informando os “Atos contra Dilma”, “quando” e “onde”. O que levou o escritor e humorista Gregório Duvivier a publicar uma montagem no Instagram: “Onde? Shopping JK Iguatemi. Serviços: babá, empregada e open bar”. O pequeno “tijolinho” provocou também a ironia de uma jovem jornalista, que lembrou a campanha publicitária do jornal e sugeriu um texto mais honesto: “A Folha é contra a Dilma. Eu também”. Na véspera – ou seja, no início da semana –, o site da Folha publicava um “mapa interativo” dos protestos e destacava os “grupos contra Dilma”, prometendo informar “quem são os organizadores”. A reportagem, entretanto, se limitava a entrevistar os líderes daquelas organizações, que é a isso que se resume o jornalismo amestrado. (A expressão é do jornalista Licínio Rios Neto, num artigo publicado no final dos anos 1980. Não é fenômeno recente, portanto.) Criando o clima Esse “simples relato”, que passa ao largo de uma apuração criteriosa, facilitou o discurso mistificador de parte dos organizadores do protesto, que evitaram – de acordo com a orientação geral das próprias lideranças do PSDB – carregar nas tintas do impeachment. Contrariando as evidências expostas nas faixas mais exuberantes, que pediam o afastamento da presidente, eles anunciaram que iriam às ruas em nome da democracia e contra a corrupção. Como se não estivéssemos vivendo em pleno regime democrático e os escândalos não estivessem sendo apurados, aliás de maneira inédita: o curioso, nessa história, é perceber que o ônus recai sobre quem apura. Da mesma forma, tanto esses organizadores quanto a própria mídia tentaram minimizar o impacto das faixas e cartazes exortando o retorno dos militares – algumas falavam em “intervenção militar constitucional” – e destilando ódio contra a suposta “doutrinação marxista nas escolas”, o que incluía um “basta a Paulo Freire”. Houve mesmo quem sugerisse que estas seriam manifestações plantadas pelo PT para desqualificar o movimento, o que nem a imprensa mais antigovernista – com o perdão do pleonasmo – ousou acolher. Brincando com o perigo “Contra a corrupção e o governo”, essa perversa associação semântica, favorece a onda pró-impeachment. Um bom jornalismo poderia apontar o vazio da primeira consigna, apresentada assim genericamente: quem pode ser a favor da corrupção, a não ser os próprios beneficiários do esquema, que entretanto não podem assumir-se como tais? Poderia apontar, também, filigranas que talvez causassem algum mal-estar: as pequenas espertezas cotidianas dessa multidão que se perfila com a mão no peito para cantar o hino nacional a plenos pulmões, vestida com as cores da bandeira e convicta da retidão de sua conduta. Mas, principalmente, poderia lembrar que essa palavra de ordem genérica – quantos notaram a ausência de demandas pela reforma política e pela mudança nas regras de financiamento de campanha? – estimula reações histéricas de nefastas consequências. Porque, sim, o governo pode ser derrubado, por vias legais ou não. Mas não custaria recordar que foi em nome do fim da corrupção – e da ameaça comunista, associada ao então governo constitucional e “corrupto” – que se promoveu o golpe, há mais de meio século. * Jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, presidente da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro, autora deRepórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notíci (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crític (Editora Revan, 2007) Publicado no Observatório da Imprensa em 16/03/2015 |






