Apenas jornalistas

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*Hélio Campos Mello

Foi-se o tempo – e ainda bem que já se foi há um bom tempo – em que o fotógrafo era considerado e tratado como jornalista de segunda categoria. Como se houvesse algo de divino em ser um jornalista de “primeira categoria”. Éramos, naqueles tempos, chamados de retratistas, lambe-lambes, apertadores de botão etc. etc. etc. Nada contra os retratistas, que muitos de nós, com uma ponta de orgulho, realmente somos. Nem contra os lambe-lambes, patrimônio histórico já extinto ou quase em extinção, que fotografavam nas praças e foram responsáveis por preciosos registros antropológicos de nossa cultura.

Assim éramos chamados de maneiras entre o jocoso e o carinhoso, que revelavam, na melhor das hipóteses, um paternalismo por parte de nossos companheiros de redação. Ou melhor: nossos companheiros da redação, porque habitávamos lugares ermos do jornal, bem longe de onde ficavam os jornalistas. E eles eram jornalistas, nós não. Nós éramos fotógrafos.

Alguns, passivos e obedientes aos repórteres, aos jornalistas; outros, nem tão passivos, éramos os chatos: Aqueles que perguntavam tudo. Aporrinhavam o repórter. O que íamos fazer? Qual era a matéria? Qual o contexto? Por que fotografar isso, por que aquilo?

Falo de maneira geral, pois exceções havia. Assim como havia antológicas duplas de repórter e fotógrafo que trabalhavam juntos, trocando bola e informação – como deveria ser –, cuja produção era excelente e diferenciada.

Felizmente aquela passividade não perdurou. Em uma espécie de luta de classes, passamos a nos autodenominar repórteres fotográficos ou fotojornalistas. Passamos a exigir que, como os repórteres de texto, também nossos trabalhos fossem assinados. Os chatos passaram a ser maioria. Até que um equilíbrio entre as duas funções, a do repórter e a do fotógrafo, veio a prevalecer. E a relevância e importância da imagem vieram juntas. Mas nada além do que deve ser. Apenas isto: relevante.

Essa exposição de fotos da ARFOC-SP** mostra com veemência impactante, emocionante e cativante, que o trabalho dos fotógrafos – ou fotojornalistas, ou repórteres fotográficos – é muito importante.
Para o jornalismo, assim como o bom texto, a boa foto é fundamental. E tanto repórteres como fotógrafos somos apenas isto: jornalistas.

* Jornalista, iniciou carreira nos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, em 1972. Passou também pelas revista Veja e IstoÉ, pelo jornal Última Hora e pela Agência Estado. Trabalhou como fotógrafo, editor de fotografia, secretário de redação, redator-chefe e diretor de redação. Junto com William Waack, recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1992, pela cobertura da Guerra do Golfo. Hoje, está envolvido no lançamento da revista Brasileiros, da qual é sócio, que deve acontecer na segunda quinzena de março de 2007.

** Exposição “Fotojornalismo 2006 – Fatos e Histórias do Cotidiano”, que fica montada no Centro Cultural São Paulo até o dia 4 de março de 2007.