Políticos corruptos pressionam mais o jornalismo local do que facções criminosas. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) não tem dados sobre assédio judicial contra jornalistas. A Procuradoria-Geral da República (PGR) diz que o tema é estadual. Os Ministérios Públicos Estaduais (MPEs) não responderam. É nesse vazio institucional que opera a violência mapeada pela investigação “Poder paralelo: 89% do jornalismo local sofreu hostilidades e só 15,8% tem liberdade de imprensa plena no Brasil”, publicada no Colabora por Gabi Coelho e Igor Soares, com apoio da Repórteres Sem Fronteiras (RSF).
O primeiro levantamento estruturado e de alcance nacional com foco específico em jornalismo local ouviu 38 profissionais de veículos das cinco regiões do Brasil entre fevereiro e maio de 2026. A coleta foi conduzida com protocolos rigorosos de segurança e anonimato, em conformidade com a Lei de Proteção de Dados (LGPD). A reportagem contou ainda com especialistas da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Artigo 19, Rede de Proteção a Jornalistas e Comunicadores, Repórteres sem Fronteiras (RSF), Universidade Federal de Santa Catarina e Observatório de Violência contra Jornalistas e Comunicadores do Ministério da Justiça.
89% dos jornalistas relataram ao menos um tipo de hostilidade no exercício da profissão. As mais frequentes: ataques em redes sociais e intimidação presencial, citados por 47,4% — que podiam marcar mais de uma opção —, seguidos de ameaças e pressão de autoridades.
60,5% deixaram de publicar alguma pauta por medo de represálias — violência policial, corrupção política, uso do dinheiro público e disputas territoriais estão entre as mais evitadas. A autocensura opera de forma seletiva: para 55,3%, a linha editorial não foi alterada, o que indica que pautas específicas são apagadas sem mudar o perfil geral do veículo.
76,3% nunca fizeram uma denúncia formal. O motivo mais citado é a falta de confiança nas autoridades. Os mesmos agentes que seriam acionados são, em muitos casos, os responsáveis pelas pressões.
63,2% relataram impacto psicológico na equipe. 78,9% afirmam não ter apoio suficiente para continuar operando em situação de risco — 84,2% apontam a falta de apoio jurídico como principal gargalo.
Apenas 15,8% consideram haver liberdade de imprensa plena no território. Para 42,1%, ela é parcial. Para os demais 42,1%, simplesmente não existe.
Quem silencia
Políticos corruptos lideram como principal ator de pressão — citados por 12 dos 38 respondentes —, à frente de empresários (7), forças de segurança do Estado (6) e facções criminosas (5). Garimpeiros, milicianos e latifundiários também foram mencionados, especialmente no Norte e no Centro-Oeste. No Sul, as forças de segurança do Estado se destacam como principal ator, num padrão distinto das demais regiões.
Panorama regional
Norte — 10 respondentes, todos com relatos de hostilidade. Isolamento geográfico, dependência de publicidade governamental e pressão de atores ligados ao extrativismo criam as condições mais adversas do país. Em Roraima, garimpeiros aparecem entre os principais agentes de pressão.
Nordeste — maior índice de autocensura: 75% evitaram pautas, acima da média nacional. Nenhum considera haver liberdade de imprensa plena. Em Maceió, um portal ficou fora do ar por mais de seis meses após contrariar a narrativa da prefeitura sobre enchentes.
Centro-Oeste — única região com 100% dos respondentes relatando pressão. Nenhum considera haver liberdade plena. O financiamento público como instrumento de censura aparece com força, especialmente no DF.
Sudeste — concentra relatos sobre facções, especialmente em favelas e periferias do Rio e de São Paulo. 60% deixaram de publicar pautas por medo; 70% relataram impacto psicológico na equipe.
Sul — forças de segurança do Estado lideram como ator de pressão. 40% deixaram de circular em certas áreas por medo. Todos adotam algum protocolo de segurança.
Como resistem
Parceria com outros veículos e publicação coletiva estão entre as estratégias mais adotadas. 73,7% utilizam algum protocolo de segurança — comunicação criptografada, publicação sem assinatura, omissão de detalhes territoriais. 26,3% não têm nenhum.
Próximos passos
Esta é a primeira fase de uma investigação em curso. A segunda fase da pesquisa está em planejamento e tem três objetivos principais: ampliar o número de participantes, produzir recortes de gênero e raça e, com rigor metodológico e suporte às vítimas, revelar os nomes de agentes poderosos responsáveis por prejudicar a liberdade de imprensa do jornalismo local no Brasil.
Sobre os autores
Gabi Coelho é jornalista investigativa independente com foco na defesa dos direitos humanos, justiça social e socioambiental. Recém-especializada em gestão de organizações da sociedade civil, analista de projetos na CTRL+Z e ex-diretora da Abraji. Tem passagens por Intercept Brasil, InfoAmazonia, Agência Pública, Gênero e Número, Globo, Estadão, AzMina, Colabora, Ponte Jornalismo, Favela em Pauta e Voz das Comunidades, além de atuação em organizações como Artigo 19, Instituto Alana, Énois, Internews, PerifaConnection, IDAFRO e Fundo Baobá.
Igor Soares é jornalista pela UFRJ. Atua como repórter colaborador da Folha de S. Paulo no Rio de Janeiro. Também é freelancer para o Estadão e para os sites Colabora e Rio on Watch. Tem vasta experiência em cobertura de cidades, direitos humanos e segurança pública. Foi repórter e editor-assistente no Fala Roça e tem passagem pelas redações do Estadão, da Agência Estado e do Portal iG.
Para mais informações:
Site da pesquisa
Material de design gráfico + vídeo da tela da pesquisa
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