*Adilson Baptista
Cumpri meu ritual no domingo (17) de manhã. Café à mesa e uma boa olhada pelo jornal que chegara antes das sete em minha casa. Isso, um dia depois de me despedir da minha turma de jornalismo, cujos rostos só verei dia 04 de janeiro na colação de grau. Estava orgulhoso da minha audácia, ter-me ingressado na faculdade com 31 anos e terminar aos 35. Missão cumprida.
Por gostar de ler a página de artigos, me chamou a atenção um texto intitulado “Pelo bom senso e a democracia”. Comecei a ler e logo percebi que se tratava de um autor que defendia o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão.
É uma discussão que está em pauta há algum tempo, desde que grandes corporações de comunicação começaram a questionar a necessidade da graduação, já que em seu quadro havia pessoas ditas jornalistas, mas que nunca cursaram uma faculdade de comunicação.
Assim trabalham muitos no Brasil, inclusive com número de registro no Ministério do Trabalho (Mtb – o número funcional do jornalista), direito que lhes era concedido pela simples comprovação de alguma atividade no setor. É como se alguém gostasse muito de leis mas nunca tivesse cursado Direito, e solicitasse seu número da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para exercer a profissão.
O texto que eu lia é do jornalista Paulo Sotero, formado em História e Mestre em Jornalismo e Políticas Públicas, ou seja, sua primeira formação não era de jornalista, mesmo que já trabalhasse como revisor na revista Veja sendo que seu mestrado tenha vindo só depois dos cinqüenta anos de idade, segundo ele mesmo diz.
Em seu artigo, Sotero afirma que “um efeito nocivo da obrigatoriedade do diploma foi ter privado as redações de gerações de jovens talentosos com formação em variadas disciplinas e vocação de jornalista, mas nenhum apetite para investir quatro anos em cursos de jornalismo de qualidade geralmente sofrível”. Segundo ele, isso empobreceu o jornalismo e piorou a imprensa.
O que me incomoda agora é: O que o MEC (Ministério da Educação e Cultura) vai avaliar nas faculdades de comunicação a cada dois anos? Porque ele concede conceitos A, B, C, para um curso, segundo Sotero, totalmente dispensável para a sociedade? Se esse time de “jovens talentosos” não tem apetite para sedimentar conhecimentos acerca do que tem como vocação, o que nós, estudantes de jornalismo, temos a ver com isso? Se a profissão de jornalista é tão essencial para a vida democrática, por que negligenciar justamente a base da formação profissional?
Deixo aqui meu protesto em uníssono às vozes de cinco mil formandos espalhados pelo Brasil, que investiram tempo, dinheiro e muito talento em busca da graduação; que acreditam no papel da imprensa enquanto fortalecedora de valores sociais e democráticos; que só estudaram porque queriam entrar no mercado de trabalho com uma postura profissional que não lembrasse, nem de longe, o famoso jeitinho brasileiro de fazer as coisas; que não querem trabalhar no improviso, mas com a seriedade que todo o povo brasileiro merece.
Sim ao diploma de jornalista.
*Jornalista e editor do jornal O Distrito de Bonfim Paulista, região de Ribeirão Preto.





