* Celso Augusto Schröder
Como Dudu, o Alarmista, célebre personagem do Luis Fernando Veríssimo, temos ouvido gritos: o Jornalismo está em crise! Este alarme, assim como os de Dudu, tem um componente de realidade, grande parte de exagero e de incompreensão e, ainda, um bocado de má intenção. A parte verdadeira, altamente rentável em curto prazo para os empresários do setor, é visível a olhos nus e está identificada já há algum tempo: a espetacularização, o sensacionalismo, a vulgarização, imprecisão e partidarização são algumas distorções já detectadas e denunciadas por pesquisadores e trabalhadores do Jornalismo. No entanto, ela já traz embutida a sua solução. Autores como Nilson Lage e Violet Morin, defendem valores também ontológicos que justificam a defesa do Jornalismo e lhe atribuem função social indiscutível. Para Lage e Morin, o bom Jornalismo, aquele que realiza relatos sóbrios, precisos e de interesse público, cumpre um papel insubstituível e absolutamente necessário para a democracia.
A crise mítica, no entanto, tem outra origem e exige outras soluções. Esta crise está localizada na incompreensão das novas tecnologias e sua relação com o Jornalismo. Reproduz-se na confusão entre plataformas e conteúdos anunciados pelos arautos da convergência e ainda, inexplicavelmente, reproduzida pela academia e, mesmo, jornalistas. E é também, compreensivelmente, amplificada pelos mistificadores de plantão, quase sempre beneficiados com o suposto fim do Jornalismo.
Esta vertente, amparada no equivoco conceitual de não distinguir o Jornalismo das plataformas, se soma ao antigo frankfurtianismo que condena produtos culturais, entre eles o Jornalismo, à danação principista de manipulação e mentira. Pela direita e pela esquerda do espectro político começa a constituir-se uma opinião de negação do Jornalismo como atividade social diferenciada e profissional. De um lado, se aceita o suposto destino inexorável da tecnologia substituindo o relato singular e diferenciado do Jornalismo. E de outro, a ideia de que este jornalismo é indesejável e irrealizável. Cresce, como no ovo da serpente, a ideia de que a liberdade de expressão e, portanto, de imprensa, é um anacrônico desvio burguês, de tal modo que a necessária e democrática compreensão de que a atividade da comunicação e, portanto do Jornalismo, deve ser regulada e regulamentada possa transfigurar-se em desejo de controle de conteúdo cultural e jornalístico. Moralismo indisfarçável, autoritarismo e demagogia começam a condenar o Jornalismo a um ostracismo pretensamente histórico.
Assim, separa a primeira face da crise do Jornalismo a solução é o bom Jornalismo com apuração, independência e responsabilidade, para a crise mítica a solução é complexa e exige soma de esforços. Antes de qualquer coisa é necessário acordar que a defesa do Jornalismo é absolutamente urgente e necessária. Isto significa reafirmar a tese de Lage e Morin, que se baseia na compreensão de que as demandas sociais que levaram ao surgimento do Jornalismo, e conseqüente consolidação da esfera pública, não desapareceram
Depois, é necessário enfrentar uma incipiente e insistente cultura de vale-tudo, onde técnica e ética cedem lugar ao oportunismo e à rapidez. Onde sedução e ao mesmo tempo servilismo ao leitor/espectador/ouvinte substituem o compromisso com interesse público pelo atendimento mercadológico de interesse do público. A tirania da audiência é uma armadilha criada pelo mercado que escraviza o jornalista e empobrece os conteúdos. Sem querer uma volta obtusa ao que era pregado pela teoria Hipodérmica que ignora o receptor, o momento é de resgatar o Jornalismo como autor e criador intelectual.
Por outro lado, o desaparecimento entre autor e audiência, entre jornalista e público, primeiramente substitui a informação pelo boato, a precisão pela velocidade, a qualidade pela vulgaridade. Dominique Wolton alerta para o perigo autoritário da imposição da audiência sobre conteúdo e defende que somente o Jornalismo como atividade mediadora permitirá a navegação – para recorrer a um termo usado à exaustão – pelo mundo da entropia do excesso de dados.
Assim, o Jornalismo, seus profissionais, a academia que o ensina, as organizações que o defendem, precisam se unir ainda mais para impor a realidade ao mito e, portanto, separar a crise real e potencialmente criadora da crise mítica imobilizadora e insolúvel. De maneira que é urgente identificar, elencar e organizar as lutas em comum que estão sendo e serão tratadas no próximo período:
1) A quase vitória na questão da obrigatoriedade do diploma como requisito para o exercício da profissão nos demonstra a validade da resistência e da unidade dos segmentos que efetivamente realizam o Jornalismo, ao mesmo tempo que alerta para a necessidade de concluir esta luta que quase exaure a categoria e suas organizações. A possibilidade de termos a votação do segundo turno no Senado –ainda em maio – e na Câmara dos Deputados é real e alentadora;
2) A ausência de fiscalização do Ministério do Trabalho e a submissão histórica dos mecanismos de estado aos interesses empresariais levaram os jornalistas a propor um Conselho Federal de Jornalistas de maneira a garantir um Jornalismo com compromisso ético e eficiência técnica. Esta luta, enterrada pelas empresas de comunicação durante o Governo Lula, deverá ressurgir no seu momento apropriado;
3) A defesa da formação acadêmica para o exercício da profissão levou para a consequente e óbvia necessidade da defesa de uma formação de qualidade com cursos de Jornalismo providos de corpo docente qualificado e equipamentos adequados a uma formação técnica contemporânea. A luta pela aprovação das novas Diretrizes Curriculares, elaboradas com importante participação da FENAJ, FNPJ e SBPJor deve ser o nosso objetivo neste ano;
4) Os jornalistas inauguraram a luta pela democratização da comunicação no Brasil.Criaram o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) por compreender que era uma luta da sociedade. A FENAJ coordenou por vinte anos este fórum construído por Daniel Herz e se retirou da sua executiva e direção quando detectou uma disputa e uma visão hegemonista dos grupos que, chegados tardiamente ao Fórum, apontam para o abandono de seu programa e um alinhamento oficialista que nega sua história de independência e combatividade. No entanto, não pode afastar os jornalistas do intuito de atribuir um controle público sobre a atividade de comunicação de massa no país, seja ele decorrente de uma rede nacional, seja fruto do esforço de uma rádio comunitária ou blog solitário, o princípio a ser defendido é o mesmo. Esta é uma atividade de natureza pública, sujeita, portanto, às regras que garantam esta dimensão pública. De maneira que um marco regulatório democrático continua sendo o nosso objetivo;
5) Com a vitória parcial do diploma, as entidades sindicais, conduzidas pela FENAJ, se voltam para a conquista de um Piso Nacional para garantir condições mínimas devida e trabalho aos profissionais e, ao mesmo tempo, a garantir independência e liberdade de expressão. O Projeto de Lei apresentado pelo Deputado André Moura, do Sergipe, tem o apoio da FENAJ e comporá uma agenda sindical da Federação e seus sindicatos;
6) Ao mesmo tempo que o Brasil apresenta inquestionáveis índices de crescimento e inclusão social,reconhecidos internacionalmente, também cresce o número de assassinatos de jornalistas no país, nos aproximando ao México, Honduras e Colômbia. Esta contradição nacional nos leva a apoiar a iniciativa do Deputado Protógenes Queiroz e seu Projeto de Lei que federaliza os crimes contra jornalistas que não forem apurados ou julgados na região em que ocorrerem;
7) O fim da Lei de Imprensa, proposto pelo Deputado Miro Teixeira e confirmado pelo STF,ao remover um entulho autoritário, deixou uma lacuna absolutamente indesejável,seja pelo ponto de vista do cidadão, sem possibilidade do direito de resposta,seja do ponto de vista dos jornalistas que ficaram a mercê de uma justiça comum quase sempre incapaz de realizar uma leitura eficiente dos processos e rotinas jornalísticas. A proposta do senador Requião dá uma clara ideia do que acontecerá se não retomarmos a proposta de uma Lei de Imprensa democrática. O Deputado Welligton Fagundes, do Mato Grosso, está disposto a retomar a proposta do ex-Deputado Wilmar Rocha, de Goiás, apoiada pela FENAJ.
Logo, Dudus Alarmistas, para a crise real do mau jornalismo, do pseudojornalismo investigativo – na verdade, jornalismo de dossiês, como escreve o jornalista Solano Nascimento, um Jornalismo que tem como missão a destruição do estado em nome de um liberalismo às raias da irresponsabilidade -, do Jornalismo partidário e anacrônico, do Jornalismo de frases feitas e clichês nauseantes,para isso temos solução: o bom e velho Jornalismo que conhecemos e ensinamos.Bom porque realizado com responsabilidade, técnica apurada e com compromisso ético. Velho, no melhor sentido, porque reafirma a investigação e a apuração como base de uma linguagem aplicada a qualquer tecnologia.
Mas Dudus, para a crise mitológica do fim do Jornalismo, temos que compor uma contra-onda que enfrente a tese de que a liberdade de expressão é uma liberdade inexplicavelmente privada, seja dos donos das redes, seja do blogueiro que imagina que sua opinião sobre o mundo é mais importante do que a informação que permite a constituição de uma opinião efetivamente pública. Para esta crise temos, ao mesmo tempo, que enfrentar a SIP e seus aliados – que pretendem que a comunicação seja uma atividade acima de qualquer regra, submetida simplesmente aos interesses privados dos donos – e por outro lado desconstituir um discurso pseudoprogressista, mas igualmente desregulamentador, que atribui ao mundo digital uma dimensão mítica de terra da liberdade.
Temos que enfrentar, ainda, um olhar ingênuo e suicida que, supostamente atendendo uma demanda de audiência, transforma Jornalismo televisivo em novela de segunda classe, faz de programa de Jornalismo em rádio uma tortura a qualquer pessoa com inteligência e senso estético medianos, reduz o Jornalismo impresso a relatórios insossos e condena o Jornalismo digital a um vergonhoso copia e cola. Temos que defender um Jornalismo que não aceite como normais, por exemplo, a invasão de quarto do ex-ministro Zé Dirceu ou os grampos usados por Murdoch na Inglaterra.
Temos que compreender que os baixos salários, os assassinatos que inexplicavelmente crescem no Brasil, o sensacionalismo como estratégia de venda, o denuncismo como tática editorial, a postura desregulamentadora como princípio ideológico, são partes de uma mesma visão de que é preciso se livrar do Jornalismo.
* Presidente da Federação Nacional dos Jornalistas e da Federação de Jornalistas da América Latina e Caribe
Artigo apresentado no 10º Pré-Fórum da FENAJ, durante o14º Encontro Nacional dos Professores de Jornalismo, em Uberlândia (MG), em 27/04/2012.





