Audálio defende CFJ e quer ampliar o debate

318

foto_audalio_dantas1O Conselho Federal dos Jornalistas é uma proposta oportuna e defensável? Qual o papel do movimento sindical dos jornalistas? A luta pelas liberdades democráticas perdeu atualidade? Os meios de comunicação vêm cumprindo seu papel neste momento repleto de denúncias de corrupção? Estas e outras questões são abordadas, nesta edição do Entrevistas da FENAJ, pelojornalista e escritor Audálio Dantas. Nascido em Alagoas, em 8 de julho de 1929, ele viveu e atuou em importantes momentos da história do Brasil. Ex-presidente da FENAJ e do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Audálio teve destacado papel no combate à ditadura na década de 1970, o que o levou à conquista do mandato de deputado federal pelo MDB naquele período. Concluindo um livro que resgata os 30 anos da morte de Vladimir Herzog, recentemente Audálio Dantas assumiu a vice-Presidência da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Com a mesma disposição e ideais que têm caracterizado sua longa trajetória no jornalismo brasileiro, ele nos concedeu a entrevista a seguir.


E – FENAJ – O Nicolau Frederico de Souza, ex-diretor do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Norte, questiona como você analisa, na sua condição de ex-presidente da FENAJ e agora como Vice-presidente da ABI, a proposta de criação do CFJ ou de uma OJB. Também neste sentido, o Presidente da FENAJ, Sérgio Murillo, recorda que você se manifestou favorável ao CFJ e pergunta: você acha possível flexibilizar a oposição sistemática da ABI em relação ao projeto?

Audálio – Sempre defendi a proposta de criação do Conselho. No entanto, divergi em alguns aspectos do projeto entregue ao Executivo. Havia grandes equívocos, entre os quais a denominação do projeto (Conselho Federal de Jornalismo). Alguns artigos do texto original ensejaram a campanha desencadeada pelos empresários de comunicação. Na verdade, uma carga pesada, uma verdadeira guerra, que impediu que o projeto fosse debatido. O projeto CFJ foi abatido antes de levantar vôo, de ser discutido no foro apropriado, que é o Congresso Nacional.

Para combater o projeto levantou-se, mais uma vez, a defesa da liberdade de imprensa. Enrolados nessa bandeira, os donos dos meios de comunicação não deixaram espaço para o debate democrático.

Quanto à posição da ABI, estou certo de que, apesar de divergências, trata-se de questão aberta para debate. Sendo uma entidade historicamente comprometida com a liberdade de expressão, a ABI é um dos espaços para a ampliação da discussão sobre a proposta. 

E – FENAJ – Três outras perguntas foram encaminhadas pelo Nicolau, de Natal. Por sua experiência como profi_sional da imprensa e dirigente sindical, o que você acha que falta para o movimento sindical dos jornalistas ampliar a mobilização da categoria? A liberdade de imprensa e de expressão nos dias atuais vem correndo algum risco no país? Você defende o uso de meios alternativos de comunicação pela sociedade para contrabalançar a força e a pressão dos meios de comunicação empresariais tradicionais? Quais poderiam ser esses meios? 

Audálio – De um modo geral, o movimento sindical no Brasil perdeu a sua importância, que foi fundamental para a reconquista das liberdades democráticas. No caso dos jornalistas, registrou-se em São Paulo uma das primeiras vitórias da oposição (e não só sindical) no País, em 1975. A perda de importância dos sindicatos se deve, em grande parte, ao modelo neo-liberal implantado a partir do início dos anos 90, trazendo crescente desemprego, terceirização etc. Outro fator, sem dúvida, foi a partidarização dos sindicatos, um grande equívoco que ocorreu também na categoria dos jornalistas. Obviamente, nenhuma categoria é composta por adeptos de um só partido político. Outro equívoco é a prática das chapas únicas, muitas vezes para mandatos consecutivos.

Essa situação contribui para que muitos profissionais deixem de participar dos sindicatos e, conseqüentemente, da mobilização da categoria em torno de questões como, por exemplo, a crescente concentração dos meios de comunicação.
A importância dos veículos alternativos durante o regime militar foi muito grande. Com a democratização, eles perderam espaço e interesse, pois a sua razão de ser era o combate à ditadura. Hoje, o combate é outro. Os meios em geral estão cada vez mais concentrados e, naturalmente, os seus não são os interesses da maioria. Precisamos discutir o papel das tevês públicas, por exemplo. E discutir, principalmente, o papel do Conselho de Comunicação Social, que resultou de lutas que duraram anos, nas quais a Fenaj teve grande participação. O Conselho que tão tardiamente foi instalado não contempla os objetivos pelos quais lutamos. 


E – FENAJ – A exigência do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão está ameaçada por uma decisão judicial da qual a FENAJ recorreu. O Luiz Fernando Fonteque Pereira, estudante de Jornalismo em Goiânia, gostaria de saber: qual a sua posição e a da ABI sobre este assunto? A ABI lutará para que a exigência do diploma não seja extinta?

Audálio – Sempre defendi a exigência da formação específica para o exercício da profissão, não apenas como meio de melhor capacitar os jornalistas, mas também como fator de organização da categoria. É claro que alguém com formação de engenheiro ou químico não terá a mesma visão, ou os mesmo interesses em relação às questões da comunicação social.
Esta, estou certo, é também a posição da ABI.


E – FENAJ – Carlos Alberto Carvalho da Silva, do Rio de Janeiro, solicita que você trace um paralelo entre a atuação da imprensa na época da ditadura, quando era difícil apresentar denúncias, principalmente contra pessoas influentes e os dias de hoje, em que , nos termos formulados por ele, “a onda de “denuncismo’ parece estar tomando conta de setores da grande imprensa, que julga e acusa antes que sejam apresentadas as provas”.

Audálio – Antes de mais nada é preciso lembrar que grande parte da imprensa apoiou o golpe de 64. Muitos veículos de expressão nacional acomodaram-se à situação e não precisaram de censores para abrir mão da informação verdadeira aos seus leitores, espectadores ou ouvintes. Claro que houve exceções, algumas notáveis, como foi o caso do Correio da Manhã, que terminou desaparecendo, morto pela censura política e econômica. Papel importante teve, também, O Estado de S.Paulo, que não apenas apoiou como conspirou para o golpe, mas depois, por discordar de alguns aspectos do regime, foi um dos que sofreram censura mais feroz e a ela resistiu bravamente.

Com a reconquista das liberdades democráticas, que custaram muitas lutas e muitas vidas, alguns veículos que silenciaram transformaram-se de repente, quando já não era possível omitir o clamor das ruas contra o que restava da ditadura. Por exemplo, na campanha pelas eleições diretas. Alguns, entre os quais veículos que embarcaram no denuncismo mais irresponsável, têm nessa prática um excelente instrumento de marketing. Isso quando não defendem interesses de grupos. 

E – FENAJ – Bem, o André Motta Lima, do Rio, e o Edson Medeiros, que não informou de onde é, fizeram questionamentos parecidos. Portanto, vamos agrupá-los. Você costuma definir o jornalismo como “ante-sala do poder”. Poderia explicar esta definição? Como você avalia a ação dos jornalistas na cobertura da crise do PT a partir das denúncias do Roberto Jefferson? A própria imprensa não pode se desgastar à medida que mancheteia “escândalos” e muitas vezes não apresenta provas consistentes? 

Audálio – Claro que é dever da imprensa investigar e publicar a verdade dos fatos. Mas isso não autoriza jornais ou jornalistas a publicar qualquer coisa que não tenha sido devidamente checada. O denuncismo irresponsável leva, muitas vezes, a esse absurdo que é a imprensa se considerar acima de crítica, ou seja, dona exclusiva do direito de criticar, mas apontando como inimigos da liberdade aqueles que ousem criticá-la.

A imprensa cumpre o seu papel quando, como no caso dos escândalos que atingem o governo e o Congresso, noticia os fatos. Mas se desgasta quando corre atrás de denúncias sem nenhuma preocupação em comprovar se elas são verdadeiras. Com as denúncias de Roberto Jefferson ocorre um fenômeno muito grave: a ele se deu todo o crédito, como fonte, quando ele próprio sempre afirmou não dispor de provas para as acusações que faz. Claro que, muito do que ele disse terminou possibilitando a posterior confirmação, mas como lhe dar crédito em tudo? E, o pior, que jornalismo é esse que transforma um acusado em testemunha de uma hora para outra? Mais do que isso, em herói, celebridade que dá autógrafos em shopping e é aplaudido como superstar em programas de televisão. Que notícias restam do acusado de ser um dos chefões das maracutaias dos Correios, origem de todo o escândalo? E que continua a fazer mistério sobre o destino que deu aos R$ 4 milhões que diz ter recebido do pessoal do PT?

Por último, vale lembrar que a famosa objetividade da informação, tão apregoada, acaba de cair por terra quando uma denúncia atinge um poderoso meio de comunicação, como é o caso do bispo da rede Record e suas malas milionárias. É evidente que, como acontece em outros casos, os meios de comun_cação não poderiam sair de cara dizendo que a dinheirama resulta de uma falcatrua. Mas também não se justifica que fato tão notável seja praticamente omitido pela Record, principalmente em seu principal jornal, cujo âncora, Boris Casoy, é apontado como exemplo de jornalista independente. E, mais do que isso, marcado pela veemência com que trata acusações que atingem outras instituições ou pessoas. 

E – FENAJ – O Ernesto Vianna, que integra a Comissão de Sindicância da ABI e é Secretário do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, nos conta que lá existe a expectativa de que você, com sua grande influência no meio jornalístico de São Paulo, traga mais paulistas para a ABI. Ele pergunta: esta expectativa vai ser confirmada?

Audálio – A pergunta do companheiro Ernesto Vianna me dá a oportunidade de afirmar que, apesar de não pretender assumir mais cargos como o que acaba de me ser atribuído pelos companheiros da ABI, sinto-me gratificado pela confiança que eles em mim depositam.

Como em outras funções que desempenhei, dedicarei a esta o melhor de meus esforços. A ABI passa por importante momento de renovação que, tenho certeza, a recolocará em sua posição histórica, principalmente no que diz respeito à defesa da liberdade de expressão. Estou certo de que muitos jornalistas de São Paulo, que pertenceram à entidade e dela se afastaram, vão retornar. E muitos outros serão novos associados.

E – FENAJ – A Maura Fraga, Assessora de Comunicação da Secretaria de Gestão e Recursos Humanos do Governo do Espírito Santo, conta que, apesar das críticas que são feitas à ABI, ela particularmente, tem recordações positivas da entidade, que defendeu muitos jornalistas no auge da ditadura. Ela relata, também, que contou com o apoio da ABI, quando foi enquadrada na Lei de Imprensa e presa. Ela sugere uma campanha nacional para buscar novos sócios para a ABI e pergunta: o que você pretende fazer para fixar a ABI como defensora efetiva da liberdade de imprensa e de expressão e mostrar que não se trata de associação recreativa, como querem alguns? 

Audálio – A companheira Maura Fraga faz algumas constatações sobre o papel da ABI que, se em alguns momentos perdeu a sua expressão, tem uma história de lutas que vem de quase 100 anos. Repito que a ABI passa por um momento importante em que valorosos jornalistas, como Maurício Azedo, seu presidente, e Ivan Cavalcanti Proença, presidente do Conselho Deliberativo, emprestam capacidade e competência para o seu fortalecimento. A ABI participou de lutas importantes em defesa dos interesses nacionais, como os movimentos pelo monopólio estatal do petróleo, a campanha das eleições diretas e muitos outros. Acima de tudo, continuará a sua luta em defesa da liberdade de expressão. 

E – FENAJ – Pra finalizar, o presidente da FENAJ nos encaminhou outra questão. Que parcerias você acha possível estabelecer entre a FENAJ e a ABI?

Audálio – Muitas parcerias serão possíveis. Elas dependem, claro, de discussões e aprovação em ambas entidades. Não posso, individualmente, responder se será essa ou aquela parceria. Mas há questões importantes em torno das quais as duas entidades podem atuar. Por exemplo, o papel do Conselho de Comunicação Social que, nesse momento, é objeto de discussão na ABI, que propõe a realização de um fórum de debates sobre a questão.

E – _ENAJ – Obrigado Audálio. A FENAJ lhe deseja sucesso neste novo desafio de participar da direção da ABI. A paraense Carmen Silva, 2º Tesoureira da FENAJ, é a próxima convidada da Coletiva virtual da Federação. Ela falará sobre o trabalho da Comissão de Direitos Humanos e Liberdade de Imprensa, da qual é coordenadora. Os interessados em participar devem encaminhar perguntas para o e-mail boletim@fenaj.org.br até as 18 horas do dia 26 de julho, especificando, na linha de assunto, Entrevistas da FENAJ.