Em mais uma campanha salarial, jornalistas de todo o país enfrentam um cenário que se repete: empresas de comunicação alegam dificuldades financeiras para justificar reajustes insuficientes, resistem a conceder ganho real e pressionam pela redução de direitos. O discurso, porém, contrasta com o histórico de incentivos fiscais concedidos ao setor, criados com a justificativa de preservar empregos e estimular investimentos.
Levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), elaborado para a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), mostra que, somente entre janeiro e agosto de 2024, as empresas de comunicação receberam R$ 462,1 milhões em desoneração da folha de pagamento. Durante anos, o benefício permitia que as empresas deixassem de recolher a contribuição patronal de 20% sobre a folha e passassem a contribuir com uma alíquota menor sobre a receita bruta.
“A desoneração da folha foi apresentada como uma política para preservar empregos e fortalecer o setor. O que vimos, porém, foi exatamente o contrário: as redações encolheram, milhares de postos de trabalho desapareceram e os jornalistas passaram a enfrentar condições cada vez mais precárias. Os incentivos chegaram às empresas, mas não chegaram aos jornalistas”, avalia Samira de Castro, presidenta da FENAJ.
Os incentivos vieram. Os empregos não.
Dados do DIEESE, com base na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), mostram que o número de empregos formais em funções do Jornalismo no segmento de jornais e revistas caiu de 9.870, em 2015, para 4.709, em 2025. Em apenas uma década, foram eliminados 5.161 postos de trabalho, uma redução de 52,3%.
Outro levantamento citado pela FENAJ aponta que, entre 2013 e 2023, empresas de jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão e portais reduziram em aproximadamente 18% seus quadros de jornalistas. Os números mostram que a promessa de preservação dos empregos, utilizada para justificar os incentivos tributários, não se concretizou.
Com redações cada vez mais enxutas, quem permaneceu passou a acumular funções, produzir para diferentes plataformas e enfrentar jornadas mais intensas. Em vez de reduzir a produção, o corte de postos de trabalho aumentou a sobrecarga, a pressão por produtividade e as responsabilidades de cada profissional.
Mais trabalho, menos valorização salarial
Mas a perda de empregos não foi o único problema. A valorização salarial dos profissionais que permaneceram nas redações também continuou distante da realidade. Enquanto as empresas insistem em alegar dificuldades financeiras para negar ganho real, os jornalistas convivem com equipes reduzidas, acúmulo de funções e crescente desvalorização profissional.
Nas mesas de negociação, a resistência patronal ao ganho real continua sendo um dos principais entraves enfrentados pela categoria. “Os números mostram que o discurso de crise utilizado pelas empresas não pode mais servir de justificativa para negar ganho real aos jornalistas. Se o setor foi beneficiado por políticas públicas durante anos, é legítimo que os trabalhadores reivindiquem valorização salarial, melhores condições de trabalho e negociações coletivas fortes para recuperar o poder de compra da categoria”, afirma a secretária de Mobilização e Negociação Salarial da FENAJ, Fernanda Gama.
A dirigente defende que esses incentivos públicos estejam acompanhados de contrapartidas que garantam a preservação dos empregos, a valorização salarial e condições dignas de trabalho. “Benefícios financiados pela sociedade não podem servir apenas para reduzir os custos das empresas, enquanto jornalistas enfrentam demissões, sobrecarga, salários defasados e perda de direitos”, ressalta Fernanda.
A Campanha Salarial Nacional Unificada dos Jornalistas reafirma que fortalecer o Jornalismo passa, necessariamente, pela valorização de quem produz a informação. Por isso, defende o fortalecimento das negociações coletivas, reajustes com ganho real, o combate à precarização e a defesa dos direitos da categoria. Chega de exploração no Jornalismo. A notícia vale. Quem produz, também.






