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* Ethevaldo Siqueira
As novas gerações quase não lêem jornais. A tiragem mundial dos periódicos cai continuamente há mais de 20 anos. É possível que, antes de 2030, a maioria dos jornais já tenha migrado para a internet. No futuro, toda informação tende a ser eletrônica ou virtual. O período de transição, que já começamos a viver, deverá ser conturbado sob todos os aspectos. Eis aí algumas das conclusões de um debate de que participei com um grupo de cinco jornalistas, profissionais experientes, especializados em comunicações e tecnologias digitais – durante o NAB Show, em Las Vegas, há 10 dias. Motivados por uma excelente palestra de Alvin Toffler, resolvemos debater algumas de suas idéias sobre o jornal do futuro, mas livremente, sem qualquer pretensão científica. Na verdade, quebramos um tabu, o de que a mídia não discute seus problemas nem seu futuro. Em nosso consenso, o jornal impresso ainda tem uma sobrevida de 20 ou 30 anos, não necessariamente como meio de comunicação de massa, mas como veículo destinado a públicos específicos, de segmento ou de nicho, voltado para a análise, a reflexão e o debate de grandes temas. No meio do processo de transição, por volta de 2015, boa parcela dos jornais de grande público já deverá estar sendo impressa em papel eletrônico ou em vias de tornar-se totalmente virtual. Nem haveria sentido em repetir, no dia seguinte, tudo que o cidadão já ouviu no rádio, viu na TV e leu na internet. O espaço em que jornal continua imbatível é o da análise e da interpretação competente dos fatos, de suas causas e conseqüências. O jornal de 2020 1) passar de produto físico a virtual; 2) evoluir de conteúdo predominante noticioso para o de análises, reflexões e discussões de grandes temas; 3) concentrar-se mais na defesa de valores éticos e sociais do que de posições político-ideológicas; 4) elevar sempre os padrões de qualidade de todos os conteúdos e de credibilidade das informações; 5) evoluir do modelo de negócio baseado na publicidade tradicional, para um novo tipo de publicidade, mais próximo do estilo do Google; 7) estar disponível, de forma ubíqua, em qualquer computador, laptop, celular, iPod e outros dispositivos portáteis. Convergência Graças a essa convergência, mesmo num país emergente como Brasil, fazemos hoje coisas que eram simplesmente impensáveis em 1990, como acessar, a qualquer instante, de nosso desktop ou laptop, os maiores jornais ou revistas do Brasil e do mundo, emissoras de rádio ou de TV, bancos de dados, enciclopédias, sites de universidades ou do Vaticano. E, com a mobilidade do celular e de outras redes sem fio, já começamos a dispor desse jornalismo eletrônico nascente, que nos traz informação, opiniões e entretenimento anytime, anywhere. Como negar a realidade e o impacto da convergência de mídias? Quando leio a massa de bobagens e agressões gratuitas contidas na maioria dos comentários postados em blogs e sites de relacionamento, fico mais cético com relação aos resultados práticos da interatividade que os novos meios começam a proporcionar ao grande público. Mesmo a contribuição dos “repórteres virtuais” ou prossumers (cidadãos produtores e consumidores ao mesmo tempo, no conceito de Alvin Toffler) não é das melhores. Assim, em muitos casos, a interatividade do jornal do futuro, pelo menos inicialmente, pode ser um retrocesso. Por fim, uma advertência minha e de meus colegas do NAB Show: não temos nenhuma garantia de que todas essas coisas venham, realmente, a acontecer, pois, como dizia Arthur C. Clarke, com sua fina ironia, é muito difícil fazer previsões confiáveis. Especialmente sobre o futuro. * Jornalista especializado em Tecnologia da Informação e Telecomunicações, colunista do jornal O Estado de S. Paulo e comentarista da Rádio Eldorado de São Paulo. * Publicado no jornal O Estado de São Paulo em 27/04/2008 |





