Mais da metade dos jornalistas que atuam em entidades sindicais já sofreu assédio, revela levantamento da FENAJ

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Iniciativa inédita ouviu 252 profissionais de todo o país e também identificou salários abaixo do piso, pejotização e equipes reduzidas nas estruturas de comunicação sindical

 

Mais da metade dos jornalistas que trabalham em sindicatos, associações, federações, confederações e centrais sindicais de todo o Brasil já sofreu algum tipo de assédio no ambiente de trabalho. É o que revela o levantamento inédito “Perfil e Condições de Trabalho de Jornalistas em Entidades Sindicais”, realizado pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ).

Os resultados foram apresentados ontem (3/09), durante live realizada no canal da FENAJ no YouTube. Participaram do lançamento virtual a 1ª Secretária da Federação e uma das coordenadoras do levantamento, Renata Maffezoli; a presidenta da FENAJ, Samira de Castro; a 2ª Tesoureira da entidade, Márcia Raquel, a secretária-adjunta de Mobilização de Jornalistas em Assessoria de Comunicação, Letícia Castro; e a jornalista sindical e integrante da Comiossão Nacional de Ética, Fernanda Viseu. A parte técnica foi conduzida pela secretária de Gênero, Raça e Etnia, Germana McGregor.

A pesquisa ouviu 252 jornalistas de todo o país, entre fevereiro e abril de 2026, e investigou aspectos como assédio, remuneração, vínculo empregatício, plano de carreira e estrutura de trabalho.

De acordo com o levantamento, 53,6% dos profissionais afirmaram já ter sofrido algum tipo de assédio. O mais recorrente é o assédio moral, seguido pelo assédio político — relacionado a posicionamento ou filiação partidária — e pelo assédio sexual.

Os dados também revelam diferenças importantes entre homens e mulheres. 57,2% das mulheres entrevistadas relataram já ter sofrido assédio, contra 48,6% dos homens. A diferença é ainda mais expressiva quando se trata de assédio sexual: 16,5% das mulheres afirmaram ter passado por esse tipo de situação, contra 3,8% dos homens.

Já o assédio político aparece com maior frequência entre os homens: 28,3%, contra 17,7% entre as mulheres.

“Os dados expõem uma enorme contradição: como entidades sindicais, que existem justamente para defender direitos trabalhistas e cobrar de empregadores o cumprimento das leis, nem sempre praticam, internamente, os mesmos direitos que exigem para a categoria que representam?”, questiona Samira de Castro.

Precarização também aparece nas relações de trabalho

O levantamento mostra que os problemas não se restringem às situações de assédio. 23,4% dos jornalistas entrevistados recebem salário abaixo do piso da categoria em sua região, enquanto 21% trabalham contratados como Pessoa Jurídica (PJ).

A pejotização, apontada nos relatos como uma forma de precarização dos vínculos, aparece em entidades que têm entre suas atribuições justamente a defesa dos direitos trabalhistas e da organização da classe trabalhadora.

Outro dado chama atenção para a sobrecarga enfrentada pelos profissionais: 30,2% afirmaram trabalhar sozinhos na comunicação da entidade, formando as chamadas “euquipes”.

Nesses casos, um único profissional pode acumular atividades de redação, edição, fotografia, produção de conteúdo, cobertura de eventos e assessoria de imprensa, entre outras funções, muitas vezes sem remuneração adicional.

Profissionais experientes e qualificados

Apesar das condições de trabalho identificadas, o levantamento mostra que os jornalistas que atuam em entidades sindicais formam um grupo profissional altamente qualificado e experiente.

88,5% dos participantes possuem graduação em Jornalismo, e a maioria dos profissionais entrevistados atua na profissão há mais de 20 anos.

“Sabíamos que muitos e muitas colegas que trabalham em entidades sindicais são ‘euquipes’, exercem múltiplas funções e estão expostas e expostos a assédios de diversas naturezas — sexual, moral e até político. Os dados confirmam esse diagnóstico e nos dão base concreta para cobrar mudanças”, afirma Renata Maffezoli.

FENAJ pretende ampliar ações de enfrentamento

A partir do diagnóstico apresentado, a FENAJ pretende utilizar os dados para orientar seus sindicatos de base na atuação junto às entidades sindicais empregadoras, buscando melhorar as condições de trabalho dos jornalistas que atuam nesses espaços.

Entre as ações previstas estão a criação de canais internos de denúncia de assédio, a fiscalização do cumprimento de acordos coletivos também nas entidades sindicais, o combate à pejotização, a estruturação das equipes de comunicação e a formação de uma rede nacional de apoio entre jornalistas sindicais.

“Nosso intuito com esse levantamento é aproximar a FENAJ das e dos jornalistas que trabalham em entidades sindicais e municiar os sindicatos de base, e a própria Federação, para dialogar com sindicatos, centrais sindicais, federações e confederações no intuito de garantir respeito e dignidade à nossa categoria”, conclui Renata Maffezoli.

Sobre a pesquisa

O levantamento foi realizado pela Diretoria Executiva da FENAJ em conjunto com a Secretaria de Mobilização de Jornalistas em Assessoria de Comunicação.

Foram consideradas 252 respostas válidas, coletadas entre fevereiro e abril de 2026. Os dados foram tratados de forma agregada e anonimizada. Nome, e-mail e nome da entidade sindical dos participantes não constam em nenhuma etapa da análise.

Acesse o resumo do levantamento AQUI

Assista à live de lançamento AQUI