RBS: Educação x Mistificação

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*Midi@ética

Contradições

Grupo RBS lança mais uma campanha institucional denominada “Educar é…”, que vai de 28 de abril a 31 de outubro, elegendo a educação como tema e voltada à criança. Tal como a campanha realizada no ano passado (2004) – “Cuide das crianças” – esta também enfoca uma questão que é muito cara à sociedade. 

A nossa reflexão pretende discutir o que significa essa nova investida da RBS. É sabido que empresas privadas procuram, de uma forma ou de outra, apresentar uma face com caráter social. Buscam, através da auto-promoção, a aceitação da opinião pública, criando uma imagem de que não visam apenas ao lucro, mas que também tem preocupações com o lado humano. 

Porém, os mentores de tais campanhas tentam dissimular o que elas encerram em si, ou seja, o reducionismo e o simplismo das campanhas publicitárias com enfoque mercadológico. A campanha “Educar é…” apresenta o mesmo formato da que a antecedeu. O aparato midiático é o mesmo: música (“jingle”), animação, anúncios e material promocional disponí­vel na Internet para uso em computador.

O que leva o Grupo RBS a se engajar em tais campanhas? Como já foi dito, buscar uma imagem favorável junto à comunidade. Mas não é só isso. Uma outra intenção menos óbvia e, exatamente por isso mais preocupante, insere-se nesse novo contexto de dar legitimidade e credibilidade à iniciativa privada em detrimento daquilo que o discurso neoliberal aponta como o “estado ineficiente”. E, nesse aspecto, estamos convictos de que o Grupo RBS tem se empenhado, com afinco, na geração e propagação desse discurso. Não são poucas vezes em que o estado é apontado como um ente ineficiente, letárgico, paquidérmico, superado, acusado de ser o maior entrave ao desenvolvimento nacional, por onerar o contribuinte e os “empreendedores”. Quem tem dúvida, basta ler os editoriais dessa empresa, ouvir seus comentaristas e ver seus programas. Alguém desconhece a expressão “fúria fiscal”, cunhada pelos detratores do estado, para designar àquilo que eles consideram como sua maior mazela?

Não se trata, aqui, de fazer a defesa da cobrança desordenada de impostos, nem de onerar a população com mais carga tributária. Mas essa denúncia da iniciativa privada reveste-se de uma profunda contradição. O setor privado deseja pagar cada vez menos tributos, mas, ao mesmo tempo, exige do poder público uma série de compromissos que este só terá condições de atender, se tiver os recursos para tanto. É comum encontrarmos, nos veí­culos da RBS, crí­ticas à saúde, à segurança, e à educação. Esses setores demandam mais e mais recursos, na medida em que a sociedade se torna mais complexa e mais desigual. Então, temos a RBS, não só alinhada incondicionalmente ao projeto neoliberal e às desigualdades que ele produz, mas comprometida com a sua difusão. Ao mesmo tempo e contraditoriamente, cobrando do estado polí­ticas para sanar os problemas gerados pelo modelo de sociedade que ela defende.

No caso especí­fico da educação, essas contradições são aberrantes. Comecemos pela escola privada: ela é duplamente excludente, quando só podem freqüentá-la os que podem pagar e por receber verbas públicas como subsí­dios diretos, nos casos das bolsas de estudo, e indiretos no que diz respeito às isenções fiscais. Essas verbas terminam faltando para as escolas públicas. Tal situação anômala, curiosamente, não é denunciada pelos “puristas” defensores da iniciativa privada, sempre tão atentos aos “deslizes” do estado, mas cinicamente condescendentes com a injeção do bom dinheiro público nos seus “empreendimentos”. Desafiamos alguém a encontrar, nos editorias da RBS, qualquer crí­tica a esse estado de coisas. O ensino privado só se justificaria, na medida em que ele pudesse se sustentar com seus próprios recursos e como uma opção àqueles que desejassem nele estudar. Nunca como uma falta de alternativa ao ensino público. 

Deseducar é…

A campanha “Educar é…” provavelmente foi gestada seguindo o princí­pio da “responsabilidade social” que o Grupo RBS diz defender. Se assim foi, por que esta empresa nunca fez uma campanha inequí­voca em defesa do ensino público gratuito e de qualidade? Por que uma empresa privada não pode apoiar programas públicos de fato, fora da esfera do assistencialismo, do voluntariado e sem a duvidosa fachada de algumas fundações caça-ní­queis, objetivando a isenções fiscais? Quem deseja, de fato, investir na educação o faz sem esperar contrapartidas. A “recompensa” é própria educação da nossa população. Segundo o dito popularizado, “povo educado é povo desenvolvido”.

A resposta para o fato da RBS nunca ter defendido a escola pública, em todos os seus ní­veis, pode ser explicado no âmbito do discurso neoliberal que ela defende. Esse discurso tem como outro de seus postulados, a pregação do conceito de estado mí­nimo. Porém, a diminuição do papel do estado como gestor da coisa pública, reflete-se imediatamente em todas as instâncias onde ele atua e a educação não foge à regra. O sucateamento da escola pública tem seu iní­cio com a assinatura do famigerado acordo MEC/USAID, feito por Tarso Dutra, então Ministro da Educação do regime militar. Mesmo assim, ela resistiu como referência até o final da década de 70. A partir daí­, iniciou-se um processo de deterioração que se agravou profundamente na era FHC e continua até hoje. Há que se reconhecer que, em alguns lugares e em alguns momentos, a escola pública foi devidamente amparada e valorizada. O caso das escolas municipais de Porto Alegre, que se tornaram referência mundial de ensino público pela sua qualidade e pela remuneração de seus professores, é um bom exemplo disso.

Esse pequeno histórico tem relevância, porque demonstra o quanto a RBS é responsável pelo estado em que a educação se encontra, na medida em que ela apoiou, incondicionalmente, o golpe de 64 e está associada, de uma forma ou de outra, a todos os processos anômalos que perturbaram a vida nacional nesses últimos tempos. O resgate da escola pública laica e gratuita, neste momento, deveria ser o maior objetivo daqueles que têm alguma preocupação com a educação. Garantir o acesso universal ao ensino de qualidade, independentemente de classe social, é o grande desafio e uma atitude democratizante por excelência. Desta forma, por exemplo, os filhos das classes mais abastadas poderiam estudar numa escola pública, num perí­odo das suas vidas em que a personalidade se forma e perceber que o mundo é muito mais do que o microcosmo de onde são oriundos.

Exposto tudo isso, ainda assim a RBS poderia demonstrar a seriedade das suas intenções com relação à educação, fazendo uma coisa que só ela pode fazer e que está relacionada diretamente a sua atividade, ou seja, mudar a grade da sua programação. Isso significaria banir dos seus veí­culos – principalmente da televisão – o lixo cultural que é oferecido ao público e que tem como linhas mestras, a exaltação da violência e do consumo (não vamos nem entrar em detalhes com relação a esse verdadeiro acinte que é o Diário Gaúcho). Aàsim, poderí­amos reconhecer no Grupo RBS uma empresa comprometida com o conceito de educação. Entendemos que a nossa proposta não é irreal, quando ela vai ao encontro daquilo que a própria empresa tanto alardeia como sendo um dos pilares da sua atuação, que é o da “responsabilidade social” (conforme o seu “Guia de Ética e Responsabilidade Social”). Tal responsabilidade só aumenta, porque este grupo empresarial, que detém o monopólio das comunicações no RS, lida com a informação, um bem público, que por sua vez é difundida através de uma concessão que também é pública. (Pelo menos no que diz respeito à mí­dia eletrônica – TV e rádio).


Quem educa quem?

A educação é um processo abrangente e está sujeita à influência de diversos fatores. O principal deles é entender que ela deve promover o desenvolvimento humano. Para atingir tal objetivo nós acreditamos no processo dialético e, portanto, na relação de causa e efeito. Não há como intervir nos processos, sejam eles de que naturezas forem, sem gerar conseqüências. Todo o fazer produz um resultado, positivo ou negativo. Quando se aposta num modelo de sociedade excludente, como é o caso da RBS, gera-se mais miséria e mais violência. Com relação à violência, entendemos que a sua causa primeira não está nos desajustes familiares ou na desagregação da moral e dos costumes, como querem alguns. Contudo, não vamos dizer que esses desajustes por si só não tenham sua parcela de responsabilidade na violência. Mas, na grande maioria dos casos, ela está ligada às desestruturações provocadas por uma realidade econômica adversa. 

Não faltará quem, ao ler esse manifesto, chame-nos de partidários ou ideologicamente comprometidos. Somos sim, como a RBS também o é, na medida em que ela representa os interesses de seus donos. Não acreditamos na “não ideologização” e na isenção dos interesses. E esse é exatamente o ponto de partida da nossa análise, ou seja, a visão que temos de mundo e a forma como as relações de poder e dominação se estabelecem dentro de uma sociedade, fazendo uso da educação, inclusive.

Reduzir a educação a uma campanha publicitária esquemática e simplória, é aviltá-la, é conspurcar o seu mais profundo sentido. Ninguém tem o direito de ser ingênuo em relação às intenções da RBS. Muito menos professores e alguns teóricos da educação que, surpreendentemente, endossam essa manobra auto-promocional sem o menor senso crí­tico. A difusão dessa campanha e outras barbaridades do gênero, ní­tidas construções midiáticas, estão invadindo até o mundo acadêmico, que deveria, pela sua própria natureza de formulador do pensamento, ter uma crí­tica clara sobre esse “discurso”. As conseqüências da incapacidade de analisá-lo com clareza são funestas, pois geram uma grande confusão. E se esta confusão atinge os acadêmicos, o que podemos dizer do restante da sociedade? Ao assistirmos essas pessoas que se propõem especializadas em determinados assuntos, no caso a educação, nós procuramos, nas suas explanações, alguma coisa que venha a enriquecer a nossa capacidade de análise de uma determinada questão. Quando um teórico da educação dá o seu aval a esses “discursos” de forma acrí­tica, alguma coisa deve estar profundamente alterada. Parece que estes “especialistas” abdicam, voluntariamente em nome sabe-se lá do quê, do seu repertório de conhecimentos para fazerem diagnósticos corretos da realidade e se limitam a serem meros repetidores de um senso comum duvidoso. A rendição dos especialistas às manobras midiáticas é, realmente, uma coisa escabrosa.

Em tempo: para falarmos de acontecimentos presentes e para efeito de registro, o governo estadual, abertamente apoiado pela RBS, está judiciosamente destruindo a UERGS, cortando verbas e fechando cursos. Certamente, a RBS não se sente responsável por isso.
* Movimento de ativistas sociais e polí­ticos discordantes do ponto de vista da “grande imprensa” –www.zerofora.hpg.com.br