“Se a notícia é importante, ela virá até nós”

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* Carlos Castilho
Pouca gente deu a devida importância a esta frase quando ela apareceu no relatório sobre novos hábitos informativos dos jovens norte-americanos, divulgado em janeiro de 2008, pelo Pew Research Center for the People and the Press.

O informe mostrou que 2/3 dos entrevistados com menos de 30 anos, se informam por meio de grupos de discussão, mensagens de amigos, comunidades virtuais e páginas da chamada Web 2.0 ou Web Social, onde os conteúdos são produzidos pelos usuários.

Passados quase cinco meses, a frase virou um slogan na boca da maioria dos analistas da internet, a partir de um fenômeno que a imprensa mundial também deu pouca importância.

Cinco minutos depois do pré-candidato a presidente dos Estados Unidos, Barack Obama ter feito um pronunciamento sobre questões raciais num vídeo publicado pelo site You Tube, a mensagem já tinha sido visualizada por 1,3 milhões de internautas e foi reproduzida por 500 weblogs individuais. Hoje, o número de visualizações já passou dos quatro milhões e não há mais como contar o número de blogs que passaram adiante o recado de Obama.

O fenômeno voltou às manchetes nos últimos dias porque os políticos envolvidos na campanha presidencial norte-americana começaram a perceber que toda a estratégia de marketing eleitoral por meio da mídia convencional simplesmente não está funcionando entre o eleitorado jovem.

E mais do que isto, está criando uma imagem falsa das tendências políticas porque o sistema de veiculação de informações e de formação de opiniões entre os jovens, com menos de 30 anos, simplesmente caiu fora do controle dos grandes marqueteiros eleitorais.

E está fugindo também ao controle dos estrategistas editoriais de jornais, revistas, emissoras de televisão e rádio. Se estiver certa a tese do Se a noticia é importante, ela virá até mim, o modelo editorial da imprensa terá que ser revisado porque será anacrônico para a geração com menos de 30 anos e que será a grande consumidora de notícias daqui a 20 anos.

As últimas pesquisas indicam que o caminho da notícia já mudou de sentido. Está ganhando cada vez mais intensidade o hábito das pessoas sugerirem notícias a amigos e parentes. Há dois anos, eu tinha uns dois ou três amigos que faziam isto. Hoje meu correio eletrônico fica entulhado com recomendações de mais de 20 parceiros virtuais regulares e já não tenho tempo de ler tudo que me mandam.

Estão se multiplicando as comunidades de informação onde as pessoas trocam informações entre si. Mas, oitenta por cento destas notícias ainda têm origem na grande imprensa e o restante em blogs e veículos alternativos.

Isto mostra que os grandes jornais, revistas e emissoras de TV continuam sendo os grandes produtores de notícias jornalísticas, mas perdem rapidamente a capacidade de contextualizar a informação, elemento que foi, durante muito tempo, a sua principal ferramenta para incidir sobre o processo de formação da opinião pública.

Os amigos começam a substituir os jornalistas e editores como referência em matéria de relevância de notícias. Outra mudança não menos importante: a declaração de 30 segundos na TV, que os americanos chamam de “sound bite” , está sendo substituída rapidamente pelos vídeos mais longos, na preferência dos eleitores jovens nos Estados Unidos.

O famoso pronunciamento de Barack Obama dura 37 minutos e está disponível no You Tube em quatro segmentos porque o site limita em 10 minutos a duração dos vídeos publicados. Por outro lado, a presença cada vez maior dos jovens na Web está criando uma nova ferramenta eleitoral, o entretenimento-político.

A música Yes We Can, gravada pelo cantor rapper Will.I.Am (um jogo de palavras que significa Eu Sou Will) em apoio a Barack Obama já foi ouvida, em suas várias versões, por mais de 20 milhões de jovens norte-americanos no site You Tube. Will.I.Am integra o grupo Black Eyed Peas.

Jeff Jarvis, um bem sucedido blogueiro e consultor em Web, cunhou a expressão press-sphere (midiasfera) para definir um ambiente informativo onde a imprensa não tem mais o monopólio da filtragem das notícias. A possibilidade de pular de uma fonte para outra usando os hiperlinks e a generalização das recomendações como ferramenta informativa estão transformando os leitores em editores de notícias.

* Editor do Blog “Código Aberto”, publicado pelo Observatório da Imprensa
Publicado no Observatório da Imprensa de 21/04/2008