Comissão de Mulheres da FENAJ repudia ataques a Ana Thaís Matos

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Os ataques dirigidos à jornalista esportiva Ana Thaís Matos após a derrota da Seleção Brasileira para a Noruega, no último dia 3 de julho, representam mais um episódio da violência sistemática que mulheres enfrentam ao ocupar espaços historicamente masculinos no jornalismo esportivo.

A comentarista foi alvo de uma enxurrada de ofensas nas redes sociais após analisar criticamente a atuação de Neymar durante a partida que culminou na eliminação da Seleção Brasileira na Copa de 2026. O episódio evidencia que, para muitas jornalistas, exercer o direito à análise técnica e à crítica ainda significa conviver com campanhas de ódio, tentativas de intimidação e silenciamento.

Mais do que um ataque individual, o caso revela uma lógica amplamente estudada pela Dra em Psicologia e pesquisadora Valeska Zanello. Ao analisar as relações de gênero, Zanello demonstra que, na chamada “casa dos homens”, são os próprios homens que conferem reconhecimento e legitimidade uns aos outros. Nesse sistema, as mulheres permanecem na posição de quem pode ser constantemente avaliada, mas não de quem possui autoridade para avaliar. Quando uma jornalista critica tecnicamente o desempenho de um atleta consagrado, ela rompe essa lógica de validação exclusivamente masculina e passa a ser alvo de reações que não buscam debater suas ideias, mas desqualificar sua presença naquele espaço.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que comentaristas homens analisam diariamente atletas, treinadores e dirigentes sem que isso resulte em campanhas organizadas de perseguição. Já quando a crítica parte de uma mulher, a resposta frequentemente abandona o campo do debate esportivo para recorrer a insultos, ameaças, ataques à competência profissional e ofensas de natureza sexista.

Infelizmente, a trajetória das mulheres no jornalismo esportivo é marcada pela repetição desse padrão de violência. Em 2018, Renata de Medeiros foi chamada de “puta” e sofreu tentativa de agressão física durante uma cobertura no Beira-Rio. No mesmo ano, Bruna Dealtry foi beijada à força durante uma entrada ao vivo. Em 2024, Alinne Fanelli recebeu uma resposta de conteúdo machista do então técnico do Palmeiras, Abel Ferreira. Renata Silveira é alvo recorrente de campanhas misóginas nas redes sociais, enquanto Renata Mendonça denunciou ataques do então dirigente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, após publicar uma reportagem sobre o futebol feminino. Mais recentemente, em maio de 2026, Nathália Máximo sofreu ofensas misóginas de integrantes de torcida organizada durante a cobertura de uma partida da Série D.

A recorrência dessas violências motivou a criação do movimento #DeixaElaTrabalhar, que denuncia o assédio contra jornalistas esportivas e reivindica condições seguras para o exercício da profissão. Levantamentos realizados pela Fenaj demonstram que agressões verbais, psicológicas e ataques motivados por questões de gênero fazem parte da rotina de grande parte das profissionais da imprensa, evidenciando o caráter estrutural desse problema.

A Comissão de Mulheres da Fenaj manifesta seu mais veemente repúdio às agressões sofridas por Ana Thaís Matos, solidariza-se com a jornalista e com todas as profissionais que enfrentam diariamente o machismo no exercício da profissão e reafirma seu compromisso com o enfrentamento à violência de gênero e à misoginia que atravessam o jornalismo. Defender o direito das mulheres de informar, analisar, questionar e criticar o esporte em igualdade de condições é defender a liberdade de imprensa, a democracia e o direito da sociedade a um jornalismo plural, livre de intimidação e violência.

Nenhuma jornalista deve ser atacada por exercer, com competência e responsabilidade, o trabalho para o qual foi formada.

Brasília, 07 de julho de 2026