O avanço acelerado da inteligência artificial nas redações brasileiras abriu novos debates sobre o futuro do trabalho jornalístico. Ferramentas automatizadas têm sido incorporadas às rotinas de produção, edição e distribuição de conteúdo, ao mesmo tempo em que crescem preocupações sobre substituição de postos de trabalho, ampliação da sobrecarga profissional e enfraquecimento de direitos.
Diante desse cenário, a regulamentação do uso da inteligência artificial no ambiente de trabalho tornou-se um dos pontos centrais da Campanha Salarial Nacional Unificada dos Jornalistas 2026, lançada pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e pelos Sindicatos de Jornalistas filiados em dezembro do ano passado, durante o 40º Congresso Nacional dos Jornalistas.
Com o tema “A notícia vale. Quem produz, também”, a campanha busca fortalecer a luta nacional da categoria por valorização profissional e melhores condições de trabalho. A iniciativa é conduzida pela Secretaria de Mobilização, Negociação Salarial e Direito Autoral da FENAJ.
A pauta unificada defende o estabelecimento de regras para o uso da inteligência artificial nos ambientes de trabalho, garantindo que a tecnologia não seja utilizada para eliminar empregos, reduzir funções, retirar direitos ou substituir a força de trabalho jornalística. A proposta também destaca a necessidade de diálogo permanente entre empresas, trabalhadores e entidades sindicais sobre a implementação dessas tecnologias.
Para a FENAJ e os sindicatos, a discussão sobre inteligência artificial não pode ser dissociada do debate mais amplo sobre a precarização do trabalho no jornalismo. O crescimento de modelos de contratação fragilizados, a ampliação da multifuncionalidade nas redações e a intensificação das jornadas de trabalho já vinham afetando a categoria antes mesmo da popularização das novas ferramentas tecnológicas.
“Além da regulamentação da IA, a campanha reivindica valorização dos pisos salariais com reajustes acima da inflação, respeito à jornada legal, combate ao uso irregular de contratos PJ e MEI para mascarar vínculos empregatícios, implantação de políticas de saúde mental, planos de saúde e protocolos de prevenção e combate aos assédios moral e sexual”, completa a secretária de Mobilização, Negociação Salarial e Direito Autoral da FENAJ, Fernanda Gama.
A pauta também inclui medidas de promoção da igualdade de oportunidades, enfrentamento às desigualdades de gênero, raça e orientação sexual, combate ao etarismo nas redações e defesa da valorização dos profissionais experientes. Entre os pontos estratégicos está ainda a defesa da PEC do Diploma e o fortalecimento da organização sindical como instrumento de proteção e conquista de direitos.
“Ao trazer a inteligência artificial para o centro das discussões da campanha salarial, a categoria busca reafirmar que a tecnologia deve servir para apoiar o trabalho jornalístico — e não para aprofundar desigualdades ou retirar direitos. A defesa é de que inovação e valorização profissional caminhem juntas, preservando a qualidade da informação e o papel social do jornalismo”, afirma a presidenta da Federação, Samira de Castro.
Confira os pontos da pauta nacional:
- Salário digno e trabalho decente
Defende condições adequadas de trabalho, respeito aos direitos trabalhistas e fortalecimento da negociação coletiva como instrumento de proteção da categoria. - Valorização dos pisos salariais
Reivindica ampliação dos pisos e reajustes com ganhos reais (reajustes acima da inflação), buscando recuperar perdas acumuladas e melhorar a remuneração dos jornalistas. - Respeito à jornada de trabalho
Exige cumprimento da jornada legal, pagamento correto de horas extras, adicional noturno e garantia do descanso semanal remunerado. - Combate à precarização e às fraudes trabalhistas
Busca enfrentar o uso irregular de contratos como PJ e MEI para mascarar vínculos empregatícios e retirar direitos trabalhistas. - Isonomia nos reajustes salariais
Defende que jornalistas contratados em regimes diferentes da CLT também tenham reajustes equivalentes aos trabalhadores com carteira assinada. - Plano de saúde para trabalhadores
Propõe a implantação ou ampliação de programas de assistência à saúde para jornalistas empregados. - Igualdade de oportunidades
Reivindica políticas efetivas de enfrentamento às desigualdades de gênero, raça e orientação sexual no ambiente de trabalho. - Combate ao etarismo nas redações
Busca garantir valorização e permanência de profissionais experientes, incluindo estabilidade para trabalhadores próximos da aposentadoria. - Saúde mental dos jornalistas
Defende políticas institucionais permanentes voltadas ao bem-estar e à prevenção do adoecimento psicológico no ambiente profissional. - Combate ao assédio moral e sexual
Propõe criação de protocolos de educação, prevenção, acolhimento e enfrentamento às diversas formas de assédio nos locais de trabalho. - Defesa da PEC do Diploma
Reafirma a importância da formação superior em Jornalismo como instrumento de qualificação profissional e fortalecimento da atividade jornalística. - Fortalecimento da organização sindical
Destaca os sindicatos como instrumentos fundamentais de defesa de direitos, negociação coletiva e resistência à fragmentação da categoria. - Combate à Lei do Multimídia
Questiona modelos que ampliam a multifuncionalidade sem valorização salarial, aumentando a exploração e a precarização nas redações. - Regulamentação da Inteligência Artificial no trabalho
Defende regras para utilização da IA nas empresas, garantindo que a tecnologia não elimine empregos, reduza funções ou retire direitos, com participação dos sindicatos e dos trabalhadores nas decisões.






