Na segunda matéria da série especial “O trabalho de jornalistas no Brasil”, dados do Dieese mostram que, em 2025, assessor(a) de imprensa foi a função responsável por 25,2% dos postos de trabalho formais
Os empregos formais em jornais e revistas encolheram mais da metade na última década, enquanto outras áreas passaram a absorver uma parcela crescente dos profissionais do jornalismo. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), elaborados a partir da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), mostram que o número de trabalhadores formais em funções do jornalismo no segmento caiu de 9.870, em 2015, para 4.709 em 2025 — retração de 52,3%. A perda foi de 5.161 postos de trabalho.
A segunda reportagem da série “O trabalho de jornalistas no Brasil”, mostra que a redução de algumas funções ajuda a explicar uma mudança importante no perfil do mercado de trabalho da categoria: as redações tradicionais perderam espaço, enquanto atividades fora dos veículos impressos passaram a concentrar maior número de trabalhadores.
Em 2025, entre os 50,3 mil vínculos formais registrados no jornalismo, a principal função empregadora já não era a de repórter ou editor, mas a de assessor(a) de imprensa, responsável por 25,2% dos postos de trabalho, o equivalente a 12.664 profissionais. Em seguida aparecem Jornalista, com 10.438 vínculos (20,7%), Editor, com 7.648 (15,2%), Repórter – exceto rádio e TV – com 4.422 (8,8%), Revisor de Texto com 3.137 (6,2%) e Repórter de Rádio e TV, com 2.810 trabalhadores (5,6%).
Os números sugerem uma reorganização profunda do mercado de trabalho da profissão. Enquanto os postos ligados à produção jornalística tradicional perderam força, áreas relacionadas à comunicação institucional e estratégica passaram a ampliar participação.
Para a presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), Samira de Castro, os dados mostram uma migração importante da categoria, mas não necessariamente significam expansão das oportunidades de trabalho em condições mais estáveis.
“Os números mostram que os jornalistas continuam sendo demandados pelo mercado, mas essa demanda está se deslocando. Hoje vemos a assessoria de imprensa assumindo um papel cada vez mais relevante na absorção desses profissionais, algo que acompanha mudanças econômicas e tecnológicas importantes”, afirma.
Segundo ela, o crescimento das assessorias não deve ser analisado isoladamente, sobretudo diante do esvaziamento das estruturas tradicionais das redações.
“O problema não é a ampliação da assessoria de imprensa, que é uma atividade legítima e historicamente importante para a profissão. A preocupação é quando esse crescimento acontece ao mesmo tempo em que vemos fechamento de redações, redução de equipes e formas mais precarizadas de contratação”, diz.
Outro dado reforça essa mudança estrutural no mercado. Enquanto os empregos formais em jornais e revistas somam hoje 4.709 vínculos, registros da Receita Federal apontam um contingente expressivo de Microempreendedores Individuais (MEIs) em atividades relacionadas ao setor editorial. Até maio deste ano, eram 14.269 registros na atividade de edição de revistas, 19.051 em edição de jornal diário e 12.758 em edição de jornal não diário, totalizando 46.078 MEIs.
O número chama atenção porque praticamente equivale ao total de vínculos formais existentes hoje em toda a área do jornalismo no país. Embora os dados não permitam afirmar que todos os registros correspondam a jornalistas, especialistas apontam que o avanço do modelo pode indicar fraude nas formas de contratação e no funcionamento do setor.
“O elevado número de MEis, pelas denúncias que recebemos nos sindicatos, indica crescimento de uma fraude trabalhista que é obrigar o trabalhador a abrir um MEI para contratá-lo como empresa, embora ele esteja sujeito a todas as características do vínculo formal”, pontua a presidenta da FENAJ.
Para Samira de Castro, a comparação ajuda a revelar uma transformação que vai além da simples migração entre áreas de atuação.
“Precisamos olhar com atenção para o crescimento de modalidades que transferem custos e riscos para os trabalhadores. Muitas vezes a substituição do vínculo formal pela pejotização aparece como modernização, mas pode representar perda de direitos e fragilização das relações de trabalho”, afirma.
O próprio estudo faz uma ressalva importante: os dados da RAIS abrangem apenas trabalhadores com carteira assinada e não contabilizam profissionais contratados como pessoa jurídica, autônomos ou outras modalidades sem vínculo formal — realidade cada vez mais presente na comunicação.







